Share on Facebook
Share on Twitter
Share on Google+
Share on LinkedIn
+

A PENÚLTIMA FESTA

      “É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta, Que a vida é curta”.            Clarice Lispector, Feliz Aniversário.

 

Vó Emília está pronta. Puseram-lhe o vestido azul marinho de bolinhas brancas com a gola de renda que, tempos atrás, enfeitou outro vestido. Sentada em sua poltrona, ela olha a filha, que se agita nos últimos preparativos para a festa, mas seu pensamento está na gola de renda. Em que vestido ela pousou antes de ser presa no tecido azul marinho? Seria no bege do casamento de Cacilda? Ou no cinza de suas bodas de prata?

– Lídia, em qual deles?, pergunta na sua voz trêmula, como se a filha pudesse ler seu pensamento.

Lídia não ouve, ou finge que não ouve. Vó  Emília esquece a gola e olha pela janela que fica em frente à poltrona habitual. Passeia os olhos pela rua estreita, quase imutável, a mesma paisagem por anos a fio. Fiapos de lembrança vêm e vão. As meninas desenhando amarelinhas na calçada, os meninos jogando bola no asfalto, disputando o espaço com os carros. Na hora do almoço, ela chamava pela janela. Cacilda, Aloísio e Laura comiam de tudo, mas Álvaro e Lídia davam um trabalho pra comer! Lídia era muito magrinha, os irmãos diziam que suas pernas serviam para palitar os dentes.

A filha traz da cozinha o bolo, que coloca no centro da mesa, sobre a toalha bordada. Afasta-se um pouco, avalia o efeito, arreda o bolo para um lado e põe em seu lugar o vaso com as rosas que um dos irmãos mandou. Hoje ela é gorda, bem gorda, mas as pernas continuam finas.

– Lídia!

Desta vez, ela ouve.

– Que é, mamãe?

– Cadê meu xale?

– Está nas suas costas.

Vó Emília aconchega o xale ao peito. Logo, começa a cochilar na sua poltrona. Uma voz a desperta:

– Parabéns, mamãe! Trouxe estes sabonetes pra senhora. São franceses.

– É você, Álvaro?, pergunta ela, franzindo os olhos que a catarata nublou.

– Sou eu sim. A Janete não pôde vir. Mandou um abraço.

Os irmãos acham que Álvaro é o predileto de Vó Emília, pois ficou rico e ajuda nas despesas da casa, mas se um dia ela teve um carinho especial pelo caçula foi há muito tempo, quando ainda eram pequenos e ele lhe parecia frágil e desprotegido. Algumas vezes, esse carinho volta pela lembrança daquele tempo. Como agora, quando ele lhe entrega o presente com o mesmo sorriso de outrora.

Lídia vem sentar-se ao lado do irmão e pergunta se ele foi ao casamento que saiu na coluna social da véspera. Quando Álvaro diz que sim, fica encantada.

– Tinha algum artista? Como é que as mulheres estavam vestidas?

A vida das pessoas ricas e famosas lhe parece fascinante. Não precisam suportar as mesquinharias e aborrecimentos do seu dia a dia sem grandeza. Um dia sonhou viver um conto de fadas e chegar lá. Se o sonho já se perdeu, o fascínio continua. Orgulha-se de ter um irmão que freqüenta a alta sociedade. Ele é seu vínculo com o sonho perdido, a bóia em que se agarra para não afundar de todo na mediocridade.

A algazarra na porta anuncia a chegada de Cacilda, marido, filhos e netos carregando agasalhos, docinhos, presentes para a vovó. As crianças correm, os pais gritam com elas. A confusão tira Vó Emília do torpor, uma lembrança quase, quase se completando. Álvaro pequenino no seu colo, o marido entrando no quarto, o cheiro do cachimbo. O barulho desfaz o quadro e ela é arrancada do passado para receber os beijos e votos de feliz aniversário. Tão logo a deixam em paz, tenta reencontrar a lembrança. Era uma boa lembrança. Por que Cacilda teve que chegar justo naquele momento?

O cheiro do cachimbo paira na memória por um instante, mas logo desaparece, junto com as imagens de um outro tempo. Vó Emília volta ao presente. Está só em sua cadeira, em meio ao burburinho.  Uma dor súbita vem apunhalá-la bem debaixo da costela. É uma dor fina e fria, que ela já conhece.

– Lídia, vem cá! – chama, num tom agoniado..

Cacilda chega antes da irmã e se assusta com o rosto contraído da mãe.

– O que é que a senhora tem?

– Uma dor.

– Onde, mamãe?

Vó Emília passa a mão no peito

– Por aqui.

Lídia se aproxima do pequeno grupo que cercou a velha e diz categórica:

– São gases. É melhor a senhora se levantar um pouco.

Ajudada pelas filhas, a velha dá alguns passos pela sala e se aproxima da mesa. Olha o bolo com as duas velas. Dois oitos. Um bolo uma vez tinha quinze velas e havia outras nos castiçais. Um moço bonito, de bigode, disse que seus olhos eram os mais brilhantes que já vira. O bolo some por trás da neblina que se interpõe entre ela e as coisas.

– Está melhor, mamãe? – pergunta Cacilda.

– Estou cansada – ela responde.

As filhas então a levam de volta à sua poltrona.

Chega o filho Aloísio acompanhado da mulher e da filha Lili, muito gorda, o rosto redondo e corado parecendo uma maçã madura. Chega a neta Celina, esguia, bela como sempre. Chega o neto Marcelo com a mulher, Marta. Ele se aproxima de Celina e engata num papo que parece que não vai ter fim. Paixão antiga, mal curada, que teve início ali mesmo naquela casa, sob os olhos ainda atilados de Vó Emília. Emburrada, Marta se afasta e, do outro lado da sala, dardeja olhares ressentidos em direção ao marido. Odeia as festas de aniversário de Vó Emília. Por quanto tempo ainda vai ter que agüentar? Será que a velha já não viveu o bastante?

Aloísio chama os parentes para tirarem retratos. Todos os anos, fotografa aquela que imagina a última festa da mãe. Formam-se grupos em volta de Vó Emília, organizados metódicamente de acordo com o grau de parentesco.

– Agora os netos, só os netos. Bisneto, não. Sai, Bruninho, bisneto é depois. Atenção, todos sorrindo. Digam cheese. A senhora também, mamãe. Dá um sorriso para a posteridade.

Ela não move um só músculo do rosto. Mais uma vez, a foto a mostrará cabisbaixa, tristonha, imensamente velha. Aos poucos, os grupos fotografados se afastam e Vó Emília fica sozinha em seu canto. Sente um arrepio. Tenta se aconchegar no xale, toca os ombros e não o encontra. Celina se aproxima, apanha o triângulo de crochê preto que caiu ao chão e o coloca sobre os ombros da avó. Esta a olha com estranheza.

– Não está me reconhecendo? – pergunta a neta.

– Laura?

– Não, vovó. Celina, a filha de Laura.

Há um silêncio. Por que é que Laura não veio? Ah, sim, Laura morreu. O tempo  atenuou a dor da perda, mas por hábito, a velha franze o rosto enrugado e choraminga.

– O que é, vovó? – pergunta Celina, preocupada – A dor de novo?

Ela sacode a cabeça:

– Sua mãe.

Em silêncio, a neta acaricia a mão da velha, num gesto de compreensão. Nesse momento, uma dor mais verdadeira e amarga brota de um fundo remoto e invade Vó Emília.

– Minha mãe morreu quando eu nasci – diz, num tom lamentoso – Foram os meus avós que me criaram.

Balança a cabeça e dá um suspiro fundo:

– Não há nada mais triste nessa vida do que a gente perder a mãe ao nascer.

Aos oitenta e oito anos, acaba de ficar órfã. A falta da mãe se confunde com todas as outras que tornam a velhice tão vazia

Bisnetos correm pela varanda, adultos conversam e bebem vinho na sala. Aloísio continua fotografando cenas da festa. A neta Lili vai sorrateiramente até a mesa, onde Cacilda e Lídia colocam travessas fumegantes, e engole uma empada, olhando em volta para ver se alguém percebeu.

– O jantar está na mesa – avisa Lídia.

Os parentes começam a se servir.

– E a vovó? – lembra alguém.

Trazem-na para a cabeceira da mesa e preparam o seu prato. Vó Emília concentra-se na comida, a boca murcha se mexendo depressa. De repente, se engasga.

Todos voltam os olhos para ela, aflitos.

– O que é que ela tem?

– Bebe um pouco d’água, vovó.

A velha se sacode numa tosse espasmódica e agoniada, o rosto vermelho, os olhos esgazeados. Ninguém sabe o que fazer. Mais uma vez é Lídia quem toma conta da situação. Dá algumas palmadas fortes nas costas da mãe até esta recobrar o fôlego. O engasgo passa, mas Vó Emília reclama:

– Você me bateu, Lídia.

Cacilda e a cunhada olham Lídia com reprovação.

– O que é? – pergunta ela agressiva.

– Não precisava bater com tanta força!

Lídia explode:

– Pra vocês é tudo muito fácil. Vêm aqui uma vez na vida, outra na morte, dizem meia dúzia de palavras e vão embora. Cuidem dela pra ver se é bom!

São todos uns egoístas. Só porque ficou solteira, acham que tem que fazer tudo sozinha. Fora Álvaro, que põe na conta, todo mês, o dinheiro dos remédios, da luz e do gás, ninguém assume responsabilidade alguma. Mas nunca perdem a ocasião de censurá-la. Vira as costas, e prepara seu prato, ainda tremendo de raiva. Em silêncio, os parentes se entreolham.

– O que é que deu nela? – pergunta Aloísio a Cacilda.

– É a menopausa – explica ela maldosamente.

Ouvem-se fragmentos de conversa, garfos roçando pratos, copos esbarrando nas louças. Celina senta-se ao lado de Lídia e sugere que ela contrate uma empregada para ajudá-la.  Lídia não pode cuidar sozinha da casa e da mãe.

– Disso eu sei melhor do que você – diz a tia, ríspida – Mas pra ter empregada é preciso pagar. De onde é que eu vou tirar o dinheiro?

– Fala com o tio Álvaro.

Este vinha justamente chegando para se despedir.

– Falar o quê?

Quando Celina explica, fecha a cara. Isso já é abuso. Não basta que pague sozinho as despesas da mãe, ainda querem contratar uma empregada às suas custas. Estão pensando o quê?

– Depois a gente conversa – diz, aborrecido – Agora tenho que ir embora.

– Não dá para esperar o bolo? – pergunta Lídia.

– Não posso, tenho um compromisso.

Vó Emília continua sentada no lugar onde a puseram para jantar.

– Está na hora do bolo, mamãe.

Um neto ajuda a velha a levantar-se. Todos se dirigem à mesa, os bisnetos acotovelando os adultos para se colocarem à frente. Alguém apaga a luz e cantam, em coro,  parabéns pra você. Novas fotografias. Vovó soprando o bolo cercada pela família.

Silenciosos, os parentes comem a sobremesa, cada qual mergulhado em seus pensamentos.  Marcelo pensa que Celina continua tão bonita quanto era aos vinte anos e que Marta, ao contrário, enfeia a olhos vistos. Virou uma bruxa irritadiça e ciumenta. Ao chegarem em casa, com certeza vai fazer uma daquelas cenas.  Lili está louca por mais um pedaço de bolo, mas tem medo que reparem. Ninguém presta atenção no prato dos magros, mas o dos gordos está sempre na mira de todos os olhares. Cacilda observa a sobrinha. Parece um paquiderme. Se fosse sua filha, poria no regime, só verduras e carnes brancas. Lídia olha em volta, amarga. Daqui a pouco, todos eles vão-se embora e ela vai continuar ali, agüentando as doenças, as lamentações, a tirania da velha. E ainda por cima vai ter que limpar sozinha aquela sujeira toda. Indiferente a tudo, Vó Emília mastiga pedaços de seu bolo de 88 anos.

A festa chega ao fim. Filhos, netos e bisnetos se despedem e se vão aliviados. Vó Emília foi devidamente homenageada, podem ir pra casa com a consciência tranquila.

Sozinha na sala desarrumada e vazia, ela deixa a cabeça pender sobre o peito e cochila alguns minutos. Acorda assustada. Onde está todo mundo?

– Lídia! – grita – Vem cá!

A filha aparece na porta da cozinha.

– O que é?

Não sabe exatamente. Há alguma coisa importante que precisa dizer. De repente, se lembra:

– Você sabia que a minha mãe morreu quando eu nasci?

 

blog-miriam-mambrini-cronica-novo-tempoblog-miriam-mambrini-conto-breu-1

Share on Facebook
Share on Twitter
Share on Google+
Share on LinkedIn
+

Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

More posts by Miriam Mambrini

Leave a Reply