Finalmente avó

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FINALMENTE AVÓ

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Ser jovem dá muito trabalho, não quero mais me esforçar para ser o que não sou. Prefiro ser velha. Já não era sem tempo, afinal estou neste mundo desde a primeira metade do século passado, já vi muitos dias e noites. Acabo de ser avó, na idade em que muitas são bisavós. Uma avó tardia, como tardios foram vários fatos marcantes da minha vida, casamento, filho, livros.

Esses atrasos determinaram que também se atrasasse minha entrada nessa fase da vida, que, se não é a “melhor idade”, eufemismo irritante, não precisa ser a pior. É uma etapa como as outras, a infância, a juventude, a maturidade. Basta que eu não exija de mim o que não posso mais ser e fazer, que aceite as novas condições com tranquilidade, e desfrutarei de algumas vantagens.

Não preciso competir, meu lugar na vida, bom ou mau, já está definido. Não competindo, não terei adversários e rivais. Não preciso também esbanjar energia, me agitando inutilmente em busca de sucesso, reconhecimento e gratificações, que cada vez me parecem mais vazios.

Um certo sossego, quase uma preguiça, são aceitos na minha idade e realmente prezo cada vez mais a indolência, o ficar parada sem pensar em nada ou quase nada. Para que pressa? Faço tudo mais devagar do que antes. Se me deito, custo a levantar, se estou sentada, continuo assim por tempo maior do que o necessário, perdida em pensamentos vadios ou escutando interiormente músicas que não sei por que afloraram na minha lembrança e ficam se repetindo.

Sendo velha, posso assumir minha dependência, preciso que me acompanhem nas coisas mais comezinhas da vida, que têm se tornado difíceis à medida que os anos passam. Preciso, sim, de apoio para descer escadas sem corrimão, preciso que carreguem para mim pacotes pesados, que enfiem agulhas para que eu possa costurar, que resolvam problemas no meu computador, que se ocupem da burocracia complicada, às vezes kafkiana, que a modernidade impõe. Nessa etapa da vida, pode-se lançar mão dessas ajudas, sem se sentir humilhado, e sem achar que se está tirando proveito dos outros. É um direito meu ser ajudada, afinal, todos conhecem as limitações dos idosos e, um dia, já ajudei a outros.

Admite-se que um velho possa esquecer nomes próprios, que hesite e faça tentativas tipo ensaio e erro para chegar ao nome certo, ao telefone certo, ao endereço certo, à informação necessária. Isso não o diminui em nada, pois é próprio da idade.

Dizer palavras e gírias fora de moda, é um direito, que acaba sendo divertido, sobretudo quando quem ouve faz uma cara de estranheza. Para que me policiar e tentar usar a linguagem dos jovens se todo mundo está vendo que venho de outro tempo? Também posso me dar ao luxo de desconhecer o monte de palavras em inglês que não só a internet, mas a globalização trouxeram para atropelar a nossa língua. Não sou americana nem inglesa, nunca vivi fora de nosso país, imagino que grande parte dos brasileiros também, então pra que tanto inglês se o português pode muito bem se encarregar de dizer quase tudo?

Assumindo a idade, posso desconhecer os ídolos da modernidade, as músicas que ferem meus ouvidos com seu baticum, os ícones das artes plásticas que constroem coisas incompreensíveis e ignorar os narcísicos e cultuados escritores que só olham seus umbigos e ganham prêmios literários. Melhor ouvir a música de outro tempo e voltar aos clássicos da literatura.

O melhor dessa fase da vida talvez seja a possibilidade de se entregar a pequenas maldades, ou subversões, com tranquilidade, fingindo estar um pouco sem noção. Finalmente se pode dizer com ar inocente o que ficou entalado na garganta com medo de desagradar a alguém, pode-se fazer brincadeiras meio sem graça, mas que nos dão satisfação, pois muitas vezes fomos alvo de brincadeiras semelhantes. Velho gagá pensam as vítimas, sem ver mais do que o ar ingênuo em nosso rosto.

Minha avó fazia crochê sentada numa cadeira de balanço. Preciso aprender crochê e comprar uma cadeira como a dela, assento de palhinha, espaldar alto, um banquinho na frente para apoiar os pés. Deve ser bom ficar se balançando enquanto se puxa uma laçada atrás da outra e, junto com cada uma, uma recordação, que puxará outra e mais outra…

Com sorte, os esquecimentos da idade apagarão as lembranças dolorosas, as ingratidões, os fracassos, nossas próprias fraquezas, que fizeram com que tantas vezes resvalássemos para o ridículo e a torpeza, as dores físicas, o mal que fizemos, e deixarão só o que tivemos de bom.

Nos embalos da cadeira, ora um cochilo, ora um sonho, ora um ponto de crochê, ora uma lembrança, ora um abanar da cabeça afastando maus pensamentos, e a vida fluirá suave, benevolente.

31/12/2016

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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