O SESSENTA E QUATRO

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Ele vinha pela Prudente de Morais no sentido Leblon – Copacabana. O ponto ficava pouco antes da minha casa, no meio do quarteirão entre Garcia D’Avila e Maria Quitéria. Além de mim, havia duas alunas do Jacobina que esperavam ali pelo ônibus sessenta e quatro. Uma, um pouco mais velha, morava com os pais numa bela casa na Garcia. Seu nome era Alys, um nome que eu achava lindo. Nunca conversei com Alys sobre um fato que minha mãe me contara, reticente, coisa do tempo em que meu pai morava em Niteroi: sua mãe fora noiva de meu pai. A vida dá voltas e mais voltas, e os ex-noivos de Niterói foram ambos morar em Ipanema, e suas filhas estudavam no mesmo colégio e esperavam o ônibus no mesmo ponto. Havia um laço tênue me ligando a Alys, um laço vago e misterioso, éramos filhas de ex-noivos.

A outra jacobinense daquele ponto era minha colega de turma: Maria Luiza Prates. Ela viera de Minas, seu pai era cego, e ela, tímida, arredia. Maria Luiza tinha longos cabelos alourados, que às vezes prendia numa gorda trança, e bochechas coradas. Também haveria um laço especial entre nós, só que esse não estava no passado, mas no futuro. Meu filho haveria de estudar no colégio fundado por sua mãe, Isa Prates, que na ocasião era dirigido por ela. Mesmo nesse futuro, que hoje já é tão passado, ela continuava arredia, e quando a procurei toda animada para falar que meu filho fora matriculado em seu colégio me recebeu friamente, como se não me conhecesse, esquecida de que tínhamos estudado juntas por três anos, e por muitos dias esperado o sessenta e quatro no mesmo ponto.

O encanto maior do sessenta e quatro é que ele levava também alunos do Santo Inácio, situado na rua São Clemente como meu colégio, misturando os uniformes quase militares dos garotos com as saias grená e blusas brancas das meninas do clássico. Nesses tempos quase pré-históricos, colégio de mulher era só para mulher e colégio de homem, para homem. Pelo menos os colégios religiosos, e o Jacobina, embora não fosse de freiras, tinha capela, aula de religião, primeira comunhão e coroação de Nossa Senhora. Nada de misturar os sexos, isso podia originar uma promiscuidade perigosa. Felizmente, para nossa alegria, havia o sessenta e quatro.

Acho que era em Copacabana que entrava um garoto turbulento, magro, cabelos alourados e lisos que os colegas chamavam, sabe-se lá por que, de Cahier de Verbes. Nós também usávamos o cahier nas aulas de francês, mas isso não revelava a razão do apelido, pequeno mistério que nunca desvendei. Cahier de Verbes não parava quieto, ia dos bancos traseiros, onde se sentavam os garotos, para a frente do ônibus, rindo, dizendo bobagens, e isso não tinha nada a ver com verbos franceses.

Não sei a razão de me lembrar desse menino, coisas da memória. Acho que é mais pelo apelido do que pelo personagem. Quem me interessava era Paulo César, moreno, talvez feio, com certeza não se encaixando nos padrões tradicionais de beleza, mas tão, tão atraente que meu coração romântico sempre dava um pulo no peito quando o encontrava no ônibus ao entrar.

No início, pensei que Paulo Cesar não tivesse dona. A decepção não tardou. Outras já tinham  percebido o charme do rapaz. Alguém me disse que ele era apaixonado pela Branca, a mais bela de minhas colegas. Depois, me disseram que namorava a Celina, um ano à minha frente no colégio. Os fatos com certeza não ocorriam ao mesmo tempo, primeiro, a paixão pela Branca, depois o namoro com a Celina ou vice-versa. Enfim, ele já estava interessado em outras garotas, eu não devia ter esperança. Muito, muito mais tarde, soube que viajava num avião pequeno que sumiu. Paulo Cesar desapareceu. Foi morar em algum reino encantado entre céu e terra.

Não havia assaltantes nos ônibus, naquela época, podíamos andar com nossos cordões de ouro com medalhas de Nossa Senhora ou do Sagrado Coração de Jesus. Mas não deixava de haver espaço para riscos de natureza variada.

Um dia, tomei o sessenta e quatro fora do horário “nobre”, quando se enchia de estudantes. Fiquei na janela, com um assento vazio a meu lado. Um homem entrou e se sentou ali. Um homem gordo e suado. Debruçou-se sobre mim e abriu a janela, sem me consultar nem pedir licença. Fechei-a, deixando gentilmente uma greta para que entrasse algum vento para o encalorado. Com um olhar furibundo, ele enfiou mais uma vez meio corpo sobre mim e a abriu. Meus cabelos fininhos começaram a voar, entrando nos olhos e na boca. Fechei a janela de novo, de novo ele abriu. Dessa vez, não reagi. Olhei em volta, buscando outro lugar, mas não havia assentos disponíveis. Deixei o vento entrar e me descabelar, ele vencera aquela queda de braço. Tinha que reconhecer que o calor estava mesmo insuportável. Ele me olhou e disse:

“Quem mandou não prender o cabelo?”

Não gostei, mas decidi não dizer que ele não tinha nada com isso. Contentei-me em lançar um olhar que imaginei de raiva e desprezo e a voltar-me de novo para a frente.

“Vai para o colégio Jacobina?”, perguntou.

A resposta poderia ser a mesma que não dei antes, mas acabei por responder que ia.

“Minha filha também estuda lá.”

Disse o nome da filha, e ela era minha colega de classe, menina muito legal. Encerrei a conversa com um “Ah!”, que ele poderia interpretar como quisesse.

Achei melhor não falar a ela do encontro, por não achar muito elegante a história do abre vidro – fecha vidro, e não poder dizer que o pai era simpático. Ou porque ela poderia não gostar de saber que seu pai andava no nosso ônibus no meio do dia como se fosse um estudante, e puxava conversa com meninas.

Foi ela quem tocou no assunto. Disse que o pai se sentara no ônibus ao lado de uma sua colega que, pela descrição, achou que fosse eu. Neguei. Não era eu. O assunto morreu aí, e a mentira boba não foi descoberta.                      

26/08/2016

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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