NO MUNDO DA LEITURA 6

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NO MUNDO DA LEITURA 6

 

Leio. Leio muito. Nunca deixo de ter um livro ou meu kindle próximo de mim. Por preguiça, ou por estar muito envolvida no trabalho de escrever meu mais recente romance, ainda não publicado, um policial chamado Pássaros Pretos, a partir do início de 2016, parei de escrever sobre os livros que li, alguns especiais, outros nem tanto.

Entre os livros brasileiros lidos e apreciados no ano passado, estão Dias Perfeitos do Raphael Montes (Companhia das Letras, 2014), para mim, seu melhor romance até agora (ainda não li Jantar Secreto); Larva, da Verena Cavalcante, (Oito e meio, 2015), contos que li me arrepiando e sem conseguir largar, é preciso coragem para escrever e mesmo para ler contos de horror narrados por crianças; Outros Cantos, da Maria Valéria Rezende (Alfaguara, 2016), tão bom que ganhou o Jabuti de 2016 como melhor livro de ficção do ano, um Jabuti justo, justíssimo, pois Maria Valéria sabe transferir sua grande sensibilidade para as palavras, conhece bem o sertão do Nordeste, tal como ele era, e de certa forma continua a ser, e conta uma história como poucos.

Li, ainda, a maravilhosa novela Greg Sam do João Paulo Vaz (7Letras, 2015), que faz uma bem sucedida transposição da Metamorfose de Kafka para nossos dias, descolando sua narrativa da original e a inserindo numa contemporaneidade, onde os valores são baseados nas aparências e o poder da mídia cria celebridades instantâneas. Fiquei tão empolgada com o livro do João Paulo, que resolvi reler A Metamorfose. A história envelheceu um pouco, se comparada ao Greg Sam, mas foi a matriz da tendência para o absurdo, como revelador da realidade e ainda é uma ótima leitura. Por causa de A Metamorfose, O Processo e outras obras de Kafka, nos referimos a uma situação como kafkiana, quando sua estranheza ultrapassa as fronteiras do compreensível e tolerável.

Vou me calar sobre os livros de autores brasileiros, muitas vezes cultuados e premiados, de que não gostei. Não me agradam livros complicados, supostamente literários. Vários autores estrelados voltaram à estante mal li o início de seus textos. Para mim, a literatura deve nos levar a fruir e a aprofundar nosso conhecimento da vida e dos homens. O texto pode incomodar, mas nunca chatear. Também não gosto dos best-sellers estrangeiros, sobretudo quando se trata de histórias românticas com pinceladas eróticas, como Os cinquenta tons de cinza, em que não vejo aprofundamento na alma humana, nem preocupação com a originalidade (algemar mulheres e chicoteá-las não é novidade, e se é para ler coisas assim, melhor ir à fonte, ou uma das fontes, e procurar as obras do Marquês de Sade.)

 

 

Em 2016, li um grande número de livros “policiais”, nome que uso à falta de melhor para me referir aos que tratam de crime e investigação.  Sempre apreciei livros desse gênero, e meu interesse cresceu por estar escrevendo Pássaros Pretos.

Li vários Georges Simenon, alguns Agatha Christie, dois Henning Mankell e um Jeffery Deaver, O Colecionador de ossos, que foi de que menos gostei.

Sou fã de Simenon. Ele consegue associar a investigação criminal à literatura, criando personagens fortes, interessantes, e usando imagens originais. Simenon vai fundo na alma humana e tem uma modernidade surpreendente para um autor que produziu a maior parte de sua obra na primeira metade do século XX. Foram mais de duzentos livros escritos. Dos policiais, os melhores são os que têm o Inspetor Maigret como investigador. Os que li agora, no kindle, eram curtos, podia-se ler de uma assentada só. Em todos eles seguimos o comissário da polícia judiciária francesa, pesadão, sempre com seu sobretudo e seu chapéu de feltro, apurando os crimes, sem revólveres ou socos, apenas levado pelas baforadas de seu cachimbo e uma inteligência afiada.

Como em muitos outros casos na obra de Simenon, os romances que li são ambientados em cidades pequenas. Destaco O Cão Amarelo, A cabeça de um homem, Um crime na Holanda e O enforcado de Saint-Pholien, o que mais gostei dessa leva. Meu romance preferido de Simenon não é policial. Chama-se O homem que via o trem passar e é considerado sua obra prima.

Da grande Agatha Christie, reli um clássico, um de seus melhores livros: O caso dos dez negrinhos. Aqui, não estão presentes seus detetives tradicionais, Hercule Poirot e Miss Marple. Somos nós que precisamos desvendar o mistério das 10 mortes ocorridas numa ilha, isolada do continente por um mar especialmente tormentoso. A cada morte, o mistério se adensa, pois são eliminados um a um os que pareciam ter mais motivos para o crime, e só no final surpreendente sabemos qual foi o culpado e suas razões.

Henning Mankel é mais um famoso escritor sueco de romances de mistério. Descobri a extraordinária vertente escandinava desse tipo de  livros quando ganhei Os homens que não amavam as mulheres de Stieg Larsson, jornalista também sueco. Li de uma vez só a trilogia Millenium, e tive vontade de me aprofundar mais no crime escandinavo.

Acho que foi numa crônica da Cora Ronai que li sobre Mankell. Comprei logo dois livros dele no kindle. Meu encantamento surgiu com a parte inicial da leitura de O homem de Beijing. Um lobo solitário caminha na neve num inverno especialmente rigoroso e chega a um pequeno vilarejo onde fareja sangue. Encontra um cadáver e o arrasta até a beira da floresta onde começa sua refeição.

Da caminhada do lobo e seu banquete passamos  ao cenário desolado de cadáveres jazendo nas poucas casas da aldeia, gente velha, aposentados, pessoas que já aguardam a morte e não despertam medo, ódio, nem inveja em outros seres humanos. São pessoas isoladas e abandonadas na solidão gelada.

Para entendermos o porquê da chacina, Mankell nos leva à California de quase dois séculos antes e nos apresenta a chineses levados para lá a fim de trabalharem em minas. Vamos à China muito tempo depois e voltamos ao vilarejo sueco.  Com mestria, Mankell vai juntando as peças desse quebra-cabeças espalhadas pelo mundo e no final nos deparamos com um poderoso homem de negócios obcecado pela vingança.

Se a neve e o frio intenso me fascinaram no início – adoro romances e filmes que se passam na brancura do inverno, bem longe dos trópicos – logo esqueci o cenário para mergulhar de cabeça nessa trama fantástica. Grande romance, mesmo para quem não é fã do gênero policial.

Não foram só essas as leituras de 2016, mas das demais falarei numa próxima crônica.

17/01/2017

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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