ALÔ, URUBU!

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ALÔ, URUBU!

Às vezes desconfio das coincidências, mas, sem encontrar outra categoria em que certos fatos se encaixem confortavelmente, acabo por cataloga-los como coincidências e ponto final.
Esse preâmbulo, talvez desnecessário, me ocorre agora quando me preparo para contar o que aconteceu hoje.
Estou terminando de escrever um romance policial, cujo título é “Pássaros pretos”. Já o tinha dado como pronto, até um editor muito experiente o ler e fazer algumas críticas. Reconheci que as observações eram procedentes, e voltei ao texto. É difícil refazer o que achávamos redondinho, pronto para ser lido. Mais difícil do que começar a partir de uma ideia que vai se desdobrando por si própria, e que se tece quase sozinha, pois uma cena puxa a outra, uma característica de um personagem nos leva inevitavelmente a um comportamento, um ato, um conflito.
Algumas modificações pontuais foram feitas com facilidade, mas estava faltando a alteração do final, que o editor considerou rápido demais, como se eu tivesse me cansado e resolvido dar um basta naquilo. Ah, os finais! Eles são sempre difíceis como sabe qualquer um que escreve. Em alguns casos, acho mesmo que encerrei o texto bruscamente, não para me ver livre dele, tenho muito amor ao que escrevo e respeito pelo meu leitor, mas porque não encontrei solução melhor.
Na natureza, aqui e em outras plagas, são muitos os pássaros pretos. Os do meu livro, no princípio, eram corvos, mas o leque foi se ampliando e sem que eu percebesse os urubus ganharam uma projeção inesperada e já estavam planando no céu ou comendo carniça em várias páginas. Diante do computador, tentava encontrar uma boa solução para o final, quando meu marido avisou que havia um urubu pousado na mureta que separa nosso prédio do vizinho. Corri para ver. Ele não parecia bem, pelo jeito como uma das asas ficava pendurada talvez estivesse quebrada. Ficou horas ali, e até a noite ainda o vimos, agachado no muro como uma galinha no choco.
As ideias voltaram a borbulhar na minha cabeça. O urubu pousara próximo à janela do nosso quarto para me apontar o rumo na construção do final do livro, não deixando de fora os pássaros pretos, cuja presença tinha diminuído ao longo da narrativa. Num romance chamado “Pássaros pretos”, eles não podem sumir de repente, têm que se enredar na trama e aí ter papel de destaque até o final.
No dia seguinte, o urubu desaparecera do muro, mas ainda voava nas minhas ideias. Logo de manhã, voltei ao texto. Inspirada pelo que vira, coloquei meu urubu de asa quebrada em cima de um muro da fictícia cidade de Velas, tal como o vira aqui no vizinho. Minha protagonista vinha no carro do inspetor que investigava a morte de seu pai, e de repente, gritou: “Pára, pára!” O inspetor surpreendido, freou bruscamente. “O que houve?” E ela: “Tem um urubu pousado naquele muro!”.
Bem nesse momento, ouvi um barulho na persiana da janela. Levantei-me assustada, fui à janela, e deparei com uma grande asa preta com pontas de penas brancas aparecendo na lateral. O barulho continuava, era a ave arranhando o plástico com suas garras, tentando se fixar. Chamei “Carlos!”, e uma cabeça curiosa de bico encurvado apareceu no vão lateral, dois olhos redondos me olharam. Meu visitante, menos feio visto assim de perto, parecia querer papo. Não deu nem tempo de desenvolver o esboço de pensamento de dar água ou comida ao bicho, Carlos chegou, puxou a persiana e fechou-a afugentando-o. Ele me conhece, já me viu proteger com unhas e dentes um ninho do pombos armado num patamar sob a mesma janela, e só admitir varrer toda aquela sujeira depois dos filhotes crescerem e apreenderem a voar.
Voltei ao computador e ao romance, agradecendo a ajuda do urubu. Agora, prezados leitores, será que o aparecimento daquele pássaro preto, naquele momento de dificuldade para dar andamento a um romance chamado “Pássaros pretos”, foi mera coincidência?

Miriam 14/10/2016

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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