Lafayette – Louisiana

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pantano

 

LAFAYETTE – LOUISIANA

 

“Não quero ir”, decidi quando soube que haveria uma excursão aos Estados Unidos. Meu colégio, o Jacobina, mandaria uma professora para acompanhar as meninas que fossem, mas outras pessoas participariam além das alunas do meu colégio, rapazes, gente mais velha. O objetivo da viagem era o estudo do inglês na Southwestern Louisiana Institute, SLI, da cidade de Lafayette, LA. Terminado o curso, o grupo faria um tour num Greyhound bus por toda a costa leste. Várias colegas estavam inscritas, mas minha decisão estava tomada e por isso não falei da viagem a meus pais.
No final de 1953, houve a costumeira solenidade de encerramento das aulas e eu fiquei entre as primeiras alunas da turma, ou fui a primeira, não me lembro. Naquele tempo, nos colégios, valorizava-se a colocação, havia medalhas e honrarias para os que se destacavam nos estudos. Até mesmo na sala de aula as alunas se sentavam de acordo com as notas, as melhor colocadas na primeira fileira. Estimulando a competitividade, levavam-se os alunos a estudarem mais. Um pensamento questionável, nos tempos mais recentes superado pelo estímulo ao trabalho em grupo, mas coerente com a inata tendência humana a disputar e também a fazer julgamentos, já que vestibulares, concursos e outras competições estão aí, definindo vencedores e vencidos, quem fica e quem sai.
Na solenidade, meus pais conversaram com outros pais e souberam da viagem. Em casa, discutiram a conveniência de me incluir no grupo. Acharam que seria um prêmio pelos meus bons resultados no colégio e uma forma de me desgrudar da saia da mamãe. O “não quero ir” acabou se transformando no “tenho que ir”.
E lá fui eu, viajando pela primeira vez sem eles e de avião. Não sei por que, com um ridículo chapeuzinho na cabeça. Imagino que minha mãe tivesse achado que se usava chapéu em viagens de avião. Decolamos do Galeão e aterrissamos duas vezes antes de chegarmos a Miami, que era longe, longe. Três dias ali e tomamos um ônibus para Lafayette.
Até aquele momento eu estava acompanhada. Colegas, a professora, a proteção garantida. Ao chegarmos à universidade, fomos todos separados. Fui parar num alojamento com apenas mais uma brasileirinha. O dormitório tinha dois andares, eu fiquei no primeiro, ela no segundo. Tudo em nome da imersão no inglês.
Ah, minha primeira noite! No meu quarto, havia duas americanas; uma eu tinha visto na porta do alojamento agarrada num rapaz, outra tinha prova no dia seguinte e manteve a luz acesa a noite toda. Meu grande luxo em casa era ter um quarto só para mim, do qual era dona e senhora. Só dormia no escuro, e no mais absoluto silêncio. Aquela primeira noite, cabeça enfiada no travesseiro, sem conseguir pregar olho, chorei silenciosamente minha rejeição e minha desgraça.
Louisiana tinha sido inicialmente ocupada por canadenses do lado francês de país, e depois possessão francesa, antes de ser vendida aos Estados Unidos, e várias famílias tinham sobrenomes franceses. Minhas colegas de quarto se chamavam Bonnie Devereaux e Popsie Mouton, e acabaram se tornando boas amigas. Não tenho memória de elefante, só me lembro de seus nomes porque escreveram mensagens em meu caderno de recordações, coisa que se usava entre adolescentes, e que recentemente encontrei arrumando um armário. Foi aliás esse álbum que me trouxe de volta o tempo que passei em Lafayette.
A segregação racial, ali, era ainda muito forte, nos lugares públicos havia banheiros separados para brancos e negros, e nos ônibus, os negros deviam se sentar atrás. Os bancos da frente eram para os brancos. Certa vez, num gesto de bravata, me sentei atrás, no lugar dos negros. Achei que era uma forma de mostrar que, para mim, brasileira, todos éramos iguais, e não havia sentido em separar lugares. O senhor sentado ao meu lado, carapinha branca num rosto escuro, me alertou: “Menina, vai lá para a frente, que você está tirando o lugar de um negro”. Meti o rabo entre as pernas e procurei o banco que me cabia. Aquela não era a forma correta de protestar contra o racismo.
Comíamos no refeitório. As refeições eram bem americanas, com muita batata frita, frango e umas deliciosas saladas de compota de pêssego com um queijo parecido com o cottage. Nada de jambalayas, crawfish pie and file gumbo, típicos da culinária cajun. Como os americanos, eu tomava um copo de leite em cada refeição. Deve ter sido por isso e pelos abusos em milk-shakes e sundaes que cheguei de volta ao Brasil gordinha e fui logo encaminhada a um endocrinologista. Ser magra já começava a ser uma exigência estética e acredito que tenha sido aí que começou meu tormento. Sempre gostei de comer, mas tinha que me restringir ao que supostamente não engordava. Lembro-me do tal endocrinologista recomendando que, em vez de pão, eu comesse torradas. Protestei: ora, eu preferia pão! Aliás rejeitei tudo o que ele disse e saí de lá com muita raiva, que a bronca da mamãe só fez aumentar.
Lafayette ficava na região do bayou, pântano típico do sul dos Estados Unidos, constituídos por lagos e rios rasos e lodosos. Na própria universidade, havia uma espécie de amostra desse pântano, o Cypress lake . Embora pequeno, o lago era impressionante, com as raízes dos ciprestes mergulhados na água, e longas barbas de velho penduradas nos galhos. Um lugar sombrio, que evocava fantasmas e mistérios.
No campus de prédios de tijolinho, em geral de dois andares, havia ainda uma profusão de arbustos de folhas duras, que na época, embora fosse inverno, estavam floridos. Eram pés de camélias, brancas, rosas e vermelhas. A camélia era a flor do estado da Louisiana, e em fevereiro houve na universidade uma festa memorável, a camelia pageant. Havia desfile de estudantes, carros alegóricos, bandas de música. No alto de um dos carros ia a rainha do camelia pageant, uma bela jovem com uma coroa na cabeça. Houve bailes, e nesses se dançava o jittebug, que tentei aprender. Além de um par adequado, acho que me faltavam sapatos, uns sapatos fechados bicolores, amarrados como os dos homens, que se usava com meias soquete, presentes nos pés de nove entre dez moças. O fato é que nunca consegui dançar como as americanas.
Aproximava-se o mardi gras e iríamos a New Orleans em grupo para a festa. A senhora encarregada do meu alojamento, sempre cuidadosa comigo, que era uma little girl com meus 16 anos, mais moça que as estudantes da faculdade, me alertava: “Be careful ,litle girl, Mardi gras in New Orleans is very dangerous!” Não sei exatamente a que perigos ela se referia, mas, ao chegar lá, só vi um desfile de comportados carros alegóricos e bandas de jazz, o que me pareceu muito inocente para quem estava acostumada com o carnaval brasileiro.
Muito depressa acabou minha temporada de estudos na SLI e , uma entre sessenta viajantes brasileiros, comecei uma viagem pela costa leste dos Estados Unidos. Fomos em dois grandes ônibus. Desse tempo longínquo guardo recordações invernais. Uma esquina em Chicago, onde o vento era tanto que tive que me segurar num poste para não ser arrastada, e a visão das cataratas do Niagara totalmente geladas, sem um fio de água escorrendo.

14/08/2016

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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