SELVA

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NAVEGAR É PRECISO

 

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Há tanto a dizer sobre minha breve viagem ao Amazonas, atraída pelo projeto “Navegar é preciso”, iniciativa de Livraria da Vila de São Paulo, que é difícil organizar as ideias. Tudo se mistura, a floresta, o rio, o barco, as pessoas, os colegas escritores, as coisas importantes que disseram nas mesas.
Começo pelo começo, nem sempre a melhor decisão em literatura, e parto do meu primeiro contato com a Amazônia, no caminho do aeroporto para o barco. Chuvisca e faz calor. Atravessamos a parte pobre de Manaus, não muito diferente de tantas cidades do interior do meu estado do Rio e de outras regiões. Fico impressionada com as pichações. Tudo pichado, como nas grandes cidades. Por que essa vontade de se afirmar sujando muros, prédios, pontes, pedras, seja lá o que for? Parece que, para os pichadores, não há outra forma de deixar no mundo o sinal de sua passagem. As casas mal cuidadas e todo o resto ficam ainda mais decadentes com tantos rabiscos.
Na minha cabeça, uma palavra: Brasil, isso é Brasil, como Brasil são os prédios de São Paulo, os milhões de veículos que circulam por suas artérias, o Cristo Redentor e o museu do Amanhã, aqui de minha cidade, amanhã que nunca chega, pelo menos de todo, o amanhã, sonho adiado para esse enorme país, cheio de contrastes.
O barco, finalmente. Um lugar confortável, cabine com banheiro, irmão um pouco menos luxuoso dos transatlânticos em que fazemos turismo no oceano. O pessoal que nos recebe é bem treinado e simpático, a maior parte tem o rosto largo dos descendentes de índios. Há um cheiro húmido nos corredores e na cabine bem arrumada que me preocupa. Alergias controladas podem aproveitar para explodir, entupindo narizes, dificultando a entrada de ar nos pulmões.
Ainda nem zarpamos e já a vejo ao longe, verde, poderosa, a floresta amazônica. Num dos passeios, tive a audácia de caminhar por ela, eu, já meio tropeçante, e pisar nas folhas mortas que forram seu chão, nas raízes e cipós que nos obrigam a olhar para baixo o tempo todo. Troncos caídos, galhos aéreos que temos que afastar para prosseguir, o medo constante de vespas, abelhas, marimbondos ou mesmo de uma cobra. Um calor furibundo, mas uma beleza! De maneira geral, os troncos são finos, e não portentosos como os imaginei. Há trechos em que é possível ver o azul do céu e a claridade do sol, outros, de mata fechada, são escuros, antecipam a noite, que na verdade já se aproxima, pois são quase seis horas. Meu marido tropeça, rola no chão. Nos arranjam cajados, paus soltos por ali, pois nada se pode arrancar na reserva. O meu pesa em meu braço, mas ajuda no equilíbrio no solo instável.
Estou na selva, num grupo guiado por um índio que já serviu ao exército na tropa da fronteira. Ele sabe tudo sobre as plantas e os bichos, que, aliás, não apareceram, talvez intuindo que somos mais perigosos potencialmente do que qualquer predador da floresta, mais do que a onça pintada, também conhecida como jaguar. Dos bichos vimos apenas alguns insetos voadores e os cupins, que derrubam árvores, e, em último caso, servem de alimento para os homens que precisam penetrar na floresta e se veem sem víveres. Vimos plantas usadas para combater a malária, doenças dos rins e outros males. Aprendemos que não podemos colocar na boca folhas que insetos desprezaram após a primeira mordida. São venenosas.
Os tuxauas sabem para que serve cada planta. Ás vezes, é preciso usar apenas uma pontinha de uma folha para curar, a folha, mesmo sendo pequena, se usada inteira na composição de um chá, mata. É o caso do curare. A empresa farmacêutica Novartis andou por ali muito tempo, levou plantas, mas não descobriu os segredos dos tuxauas. Assim mesmo, pelo que entendi, utilizam essas preciosas plantas em alguns medicamentos.
Na mata há fibras cheirosas, usadas na preparação de perfumes. Ficamos sabendo que, na falta total de água, basta cortar enviesado um pedaço de galho de uma planta que parece abundar por ali, leva-la à boca e esperar que pinguem algumas gotas. Vemos como se improvisa uma zarabatana.
Aprendemos que ainda há índios isolados, vivendo bem perto da estrada de asfalto. Uma dessas tribos usa pontas de ferro nas suas flechas, não entendi bem se cedidas pelos brancos de uma mina de ferro na reserva deles ou feitas por eles próprios. Conrado, o índio que está comigo numa foto no facebook é dessa tribo e ali viveu até os sete anos. Conrado, um brasileiro, teoricamente mais brasileiro do que eu, já que sua gente se encontra por aqui há muitos séculos, e meus antepassados imigrantes vieram tão depois.
Vi uma casa abandonada, após a tentativa de um agricultor de cultivar mandioca e milho. Essas plantas não são da floresta, não resistem à água do rio que sobe e baixa, nem a outras contingências desse ecossistema tão especial. A floresta amazônica não é feita para a agricultura. Aqui se pode coletar frutas gostosas, sementes que artesãos transformam em belíssimas biojoias. E pode-se pescar grandes peixes que proveem a subsistência de muita gente. Mas que não se pense em despir a terra de sua cobertura vegetal, ela se vingará impedindo o sucesso de qualquer empreendimento agropecuário.

2 de maio de 2016

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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