RESENHA DE VICIOS OCULTOS NO PORTAL CANELA

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ÍCIOS OCULTOS – O QUE VOCÊ FAZ QUANDO NINGUÉM VÊ? [RESENHA]

Por Pedro Henrique
05 de junho de 2016
Olá, pessoal!
Cá estou eu, hoje quero falar sobre um livro que muito me agradou e que conseguiu, sem muita dificuldade, superar as expectativas que tinha sobre ele. Mas, primeiro, vamos às apresentações.
Vícios Ocultos é uma coletânea de contos escritos pela experiente escritora Miriam Mambrini. Neste livro, a autora traz ao leitor treze contos que vão explorar o mais íntimo das particularidades humanas, o fetiche, a tara, a compulsão, os vícios ocultos que escondemos do mundo e que, por vezes, tememos que sejam descobertos.
O livro foi lançado em 2009, pela editora Bom Texto, que já não existe mais, e, por isso, teve uma divulgação bem rasa. Porém, a autora decidiu resgatar sua obra e nos agraciou com uma obra que vale a leitura ainda que, em alguns momentos, possa chocar o leitor com seus relatos.
Vícios Ocultos tem sido vendido em duas edições (física e audiolivro) e conta com epígrafes de autores comoRuffato e Trevisan. Já sua versão em áudio, conta com a narração Cristiana Galvão e Paulo Rogério e foi pensada especialmente para as pessoas com deficiência visual.
Sobre o livro
Miriam Mambrini fez de Vícios Ocultos um livro realmente interessante tanto pela forma como a autora constrói suas narrativas, como também, pelo conteúdo que cada narrativa carrega. Vícios Ocultos é, antes de tudo, um apelo ao próprio eu, um convite à interiorização e exploração de nossa identidade. Não é um livro, digamos, politicamente correto, mas, nem por isso, ofensivo. Confesso, no entanto, que ao ler o conto que abre a coletânea (Nanismo), me vi contorcendo o rosto diante da história que se seguia. Entretanto, a sequência de histórias que vem a seguir e o próprio conjunto da obra nos faz refletir sobre o porquê de torcermos o nariz diante dos relatos apresentados.
O livro choca, isso é fato. Choca não por mostrar ao leitor uma sociedade cheia vícios e manias, muitas vezes, imorais e até preconceituosos em algum nível, mas sim, por mostrar que nós mesmos podemos ser assim ainda que, nem sempre, percebamos isso.
São treze contos que narram desde uma tara contida por mulheres anãs à uma compulsão desmedida por coleções, passando por um homem viciado em trabalho, a mulher cleptomaníaca, a realidade confusa de um personagem sem memória, entre outros. Todos os treze contos, ainda que absurdos numa primeira análise, tendem a confrontar nossa própria identidade e a forma como nos vemos, nossa projeção pessoal de um eu interior. E, talvez por isso mesmo, o livro choque tanto.
Talvez você me pergunte o que pode haver de interessante numa história sobre um homem com fetiche em mulheres anãs. O que eu posso dizer é que numa sociedade em que o corpo humano (masculino ou feminino) tende a ser objetificado e padronizado, tratar de um fetiche nos força a encarar a realidade que, muitas vezes, tentamos ignorar. O fetiche existe, não só em relação à mulher anã – esta, quase sempre, marginalizada na sociedade, até mesmo por ação da fetichização – mas também, em relação a todas as outras formas com que nosso corpo pode se apresentar. Por que, afinal, a atração por mulheres anãs é considerada um fetiche, mas a atração por mulheres dentro do padrão estético é visto como algo normal e até reiterado socialmente?
Na verdade, todo o livro parece se estender sobre a questão de como o ser humano se realiza na sociedade em todos os âmbitos de sua vida, seja no sexual, seja nas suas relações interpessoais, seja na sua autoafirmação. E é interessante notar que, em cada caso, os personagens se apresentam direta e indiretamente como resultado de seus vícios e manias como se, ao tentar escondê-los, eles acabassem expondo-os ainda mais.
E a reflexão se estende e se expande, não se restringe apenas ao sexual. Mas, “O que Freud sabe de brincos”? Eis a pergunta que encabeça o terceiro conto deste livro. Seguido do conto “Freio nos Dentes”, ambos os contos trazem à tona uma necessidade latente de ter aquilo que não nos pertence, seja tomando os brincos de suas parceiras, seja tomando o cônjuge de seus pais. Porque, afinal, a sociedade parece se sustentar sobre a ideia de que o ter é mais importante do que ser e sobre essa ideia estes dois contos se sucedem.
E no meio disso tudo, fica aquela sensação de que nos falta algo ou então, de que nós estamos em falta com algo ou alguém. Esse sentimento de dívida permanente que nos acompanha desde cedo é o que guia o personagem central do conto “Débito” e que dialoga tão perfeitamente com “O homem que lia necrológios” que é quase possível pensar que ambos os contos tratam do mesmo personagem.
Vícios Ocultos é um livro que fala de nossos impulsos mais intensos, aqueles mesmos aos quais damos voz quando ninguém nos vê ou quando achamos que ninguém poderá nos descobrir. Seja isso um fetiche, mania ou mesmo um pensamento recorrente. Todos nós temos um vício oculto, algo que só nós conhecemos e que queremos que continue assim por um bom tempo. Qual é o seu vício oculto? Essa é a pergunta que Miriam Mambrini nos faz em seu livro.
Boa leitura e até a próxima!

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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