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Imagine-se o nada. E diante dele, alguém que pode fazer surgir imagens, sons, movimento, vida. Não há receitas nem projetos prontos. Sua liberdade não tem limites.

Ele hesita por instantes… e ousa a primeira frase. O mundo começa a ser criado. Outras palavras se juntam às primeiras e crescem os parágrafos. O vento zune, casuarinas desamparadas agitam os braços contra o céu nublado na tarde que finda.

Surge um carro na estrada de terra enlameada. Ao final da estrada, quase escondida pelas sombras da noite, pode-se entrever uma praia de águas revoltas onde se espalham algumas casas. O carro pára diante de uma delas. Vêem-se as primeiras figuras humanas, um homem e uma mulher, Adão e Eva. Ele desce do carro, ela abre a porta da casa para ver quem chega. São vultos. A idade, a aparência, os desejos e sentimentos desses seres ainda não se definiram, nem o que lhes será dado viver.

Por instantes, o mundo, estático, aguarda o prosseguimento de sua criação. São infinitas as alternativas. Inclusive a de desfazer o começado, voltar atrás e iniciar um novo mundo, uma nova história. O fim do que recém nasceu se alarga como possibilidade. Estremecem Adão, Eva e a praia ventosa.

Mas a criação segue seu curso. Adão é magro, tem o nariz aquilino e, se o ouvíssemos falar, saberíamos que sua voz é rouca. Eva, que tem olhos tristes, usa um velho casaco de lã e está descalça.

A vida de Eva vai se esboçando devagar. Nasceu e sempre morou ali na praia varrida pelo vento. Tem um filho que ainda mama em seu seio e um marido estúpido. O marido bate nela quando bebe. E bebe todo santo dia. O vento agita os cabelos ralos de Eva e a faz tremer de frio.

E esse Adão magro, quem é? Um irmão de Eva que viajou para fora do país há muito tempo, ganhou dinheiro e volta agora para rever a família, da qual só ela restou? Um homem que, por anos, pensou na menina com quem brincou num verão remoto, e finalmente resolveu procurá-la? Numa tarde quente, quando não havia vento, mas, como agora, o sol acabara de se pôr, ele ousou beijá-la e acariciou seus seios pequenos e pontudos. Nunca mais houve seios tão doces, nem emoção tão intensa. Adão se espanta ao ver o quanto Eva mudou. Eva não reconhece Adão.

Mas pode haver outros motivos para a presença do homem naquela praia, à porta daquela casa, motivos que não dizem respeito à mulher que o observa, uma simples criada, a vizinha, talvez, personagem secundário. Que caminho escolher entre os mil e um possíveis?

O homem aguarda, imóvel. Por enquanto, não passa de um vulto magro que acaba de sair de um carro. Pode ser um fugitivo da justiça, um assassino maníaco à procura de uma vítima. Que melhor vítima poderia encontrar do que a mulher solitária e indefesa na porta da casa? Ou, quem sabe, um detetive obstinado perseguindo o maníaco. Ou ainda alguém muito diferente, um artista, um pintor, imagens e cores turbilhonando na cabeça. Ele e a mulher viverão um romance marinho, cheiro de algas impregnando o ar enquanto fazem amor no chão da casa de praia. O marido estúpido rastreia o casal, descobre o amor clandestino, mata os amantes a golpes de machadinha.

Não, pintor não. O homem é, na verdade, um escritor à procura de um lugar isolado onde possa escrever em paz. Trará à luz velhos e incômodos fantasmas para exorcizá-los. Esse homem guarda um segredo. Vai morrer em breve, tem uma doença fatal, e prefere ele próprio cuidar de sua morte. A morte no mar. Doce? Menos amarga do que a que antevê, num leito de hospital, dores, morfina, tubos por todos os orifícios, definhando aos poucos.

Lá está ela, a morte. Uma morte indomável que vem de dentro e não de fora, como a que golpearia os amantes ou a mulher na porta, que o maníaco escolheu para retalhar com sua faca afiada. A morte. Será que não é possível esquecê-la? Então, antes mesmo de ser criado, esse homem já foi condenado?

Pobre personagem que nasceu marcado para morrer! Talvez mereça, pois não se define, não se impõe, não força o criador a penetrá-lo, conhecer seus sentimentos e lhe dar uma vida e uma história.

Se é para que morra, não o quero, pensa o criador. A mim, não posso recriar, devo seguir meu caminho de condenado, mas posso poupá-lo desse destino. Afinal, sou eu quem cria, aqui é território meu. E por que essa mulher que se deixa espancar pelo seu homem e não se rebela? Que só tem direito a um grito estridente antes da faca do maníaco e a um sussurrado pedido de clemência ao marido que ergue a machadinha? Não, chega de vítimas!

A mulher triste volta para casa e fecha a porta. O homem magro entra no carro e parte. Sobram a praia, o vento, as casuarinas, o sol que se põe. Não é o ambiente certo, diz o criador para si mesmo. Preciso de mais luz, mais alegria, mais movimento, um espaço onde não caiba o homem com a doença do caranguejo, que tem fantasmas a exorcizar. Talvez o dinamismo da rua de uma cidade grande, onde transita gente que faz planos, trabalha, ri, se diverte e tem esperança. Gente cheia de vida, sem passado e com muito futuro. Personagens que podem viver mais e melhor do que quem as cria. São tantas as possibilidades! Por que estar sempre voltando a esse homem magro e rouco, com seu nariz aquilino e sua condenação?

Num único movimento de mão, quase com raiva, faz desaparecer o mundo recém criado. Na tela cinza, o cursor pisca.

Miriam Mambrini
conto

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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