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Da resenha atenta e sensível de Bruna Kalil Othero, publicada na revista Obviuos hoje cedo.

Meu primeiro contato com a carioca Miriam Mambrini foi através do seu romance mais recente, “A Bela Helena” (7Letras), lançado em 2015. O livro teve um feito imediato: fazer uma leitora majoritariamente de poesia apreciar um romance. Como se não bastasse, me abriu as portas para o maravilhoso mundo da prosa contemporânea, que anda de vento em popa, muito obrigada.

Depois dessa ótima experiência, foi fácil cair de boca nos treze contos de “Vícios Ocultos” (Bom Texto), obra lançada originalmente em 2009, mas que agora está voltando às prateleiras dos leitores. Confesso que li essas pequenas prosas com a ferocidade típica dos viciados, procurando o que seriam essas obsessões ocultas.

Cada conto conta (trocadilho gratuito) com epígrafes feitas sob medida pelos amigos escritores e contemporâneos de Miriam, enriquecendo e aumentando as possibilidades de leitura de cada um. A minha preferida, escrita por Sônia Peçanha, nos dá o ultimato necessário para continuar lendo: “Viver? Um vício. Só a morte cura.”

A construção dos enredos se dá a partir de situações prosaicas que originam personagens comuns, pessoas que facilmente poderíamos encontrar na rua, no trabalho ou na família. Eu mesma tenho certeza que já vi alguns desses narradores andando por Belo Horizonte – e sei que Miriam também trombou com eles no Rio de Janeiro. No conto “Os Dados”, as personagens apostam seus destinos, seguindo a premissa de que a vida é um jogo. O vício da vez é no lance de dados (aqui, me lembrei de Mallarmé – “un coup de dés jamais n’abolira le hasard”), na sensação decisiva de “tudo ou nada”.

A estética adotada por Mambrini é também característica dos textos contemporâneos. A maioria dos contos é narrado em primeira pessoa, criando personagens complexos e histórias vistas apenas por uma ótica. O ponto alto desse recurso aparece em “Oblivion”, conto no qual o narrador tem problemas de memória, se esquecendo constantemente dos fatos passados. Acompanhando uma narrativa parcial, em looping, o leitor se coloca frente aos acontecimentos múltiplos vividos pelo personagem, e fica naquela dúvida: será que isso já aconteceu ou não? Afinal, tratando-se de narradores em primeira pessoa, tudo pode ser mentira – ou, nesse caso, uma confusão dentro da cabeça do próprio locutor.

Tecendo figuras cômicas como uma jovem que endeusa um ídolo (“As Cuecas de Deus”) e o presidente drogado (“Regulamento”) até tipos extremamente complexos como a filha que tem pendências com a mãe (“Freio nos Dentes”) e o neto que atendia os pedidos mórbidos da avó (“O Homem que lia Necrológios”), Miriam tece histórias altamente absurdas, ainda que simultaneamente verossímeis. Um exemplo disso é “Numa Folha de Papel”, conto no qual conhecemos um executivo ganancioso mais preocupado com seus negócios do que com a própria vida (e morte) – grande crítica direcionada aos homens contemporâneos, que estão sempre correndo e cumprindo prazos, deixando pra trás os verdadeiros prazeres da vida.

Ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de ter lido uma obra altamente orgânica.

Livros assim me excitam, me interessam mais que os outros, justamente pelo caráter circular, de criar algo que faz sentido de cabo a rabo. O meu fetiche, nessa experiência literária, foi tentar desvendar, ao longo das páginas, todos os vícios (antes ocultos) dos personagens. Como um deles postula no conto “O Que Freud Sabe de Brincos?”, “A normalidade está na estranheza.” (p.39) – evocando o Alienista de Machado de Assis. Conheci personagens com obsessões esquisitas, excêntricas – o meu preferido foi o que tinha o fetiche em saber fetiches alheios –, apenas para, no fim, ter a deliciosa descoberta de que eu também tinha os meus próprios vícios, tão ocultos que nem os percebera antes.

Fonte: http://obviousmag.org/poetiquase/2016/03/o-exposto-e-o-oculto-nos-vicios-de-miriam-mambrini.html

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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