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Alexandre Kovacs, em seu Mundo de K, me brindou com uma maravilhosa resenha de ‘Vícios ocultos’. Meu filho ignorado finalmente desperta. Agradeço ao Alexandre por essa alegria.

 

Fiquei surpreso com o domínio técnico e segurança de Miriam Mambrini ao ler os treze contos reunidos neste ‘Vícios Ocultos‘, livro que recebeu muito pouca divulgação na época do lançamento devido às dificuldades do nosso mercado editorial. Os textos são contemporâneos, mas com sabor de antigos clássicos da literatura brasileira que formaram a nossa tradição de qualidade nas narrativas curtas. A autora se enquadra muito bem neste estilo breve, escrevendo com originalidade, concisão e bom humor sobre personagens envolvidos em situações-limite e inusitadas, decorrentes de suas estranhas opções de vida, incompatíveis com os padrões de “normalidade” impostos pela sociedade em que vivem ou sobrevivem, padrões nem sempre razoáveis e muitas vezes hipócritas, é bom que se diga.

Uma novidade interessante, cada um dos treze contos é precedido por uma epígrafe exclusiva solicitada por Miriam Mambrini a autores de sua relação, tais como: João Silvério Trevisan, Luis Ruffato e Adriana Lisboa, ideia original e que se mostrou eficiente como diálogo e contraponto aos textos, funcionando ao mesmo tempo como introdução e espelho poético, gerando múltiplas interpretações.

Em ‘Nanismo‘, conto de abertura, não é exatamente um ‘vício’ que serve como matéria-prima, mas sim uma espécie de tara incomum do protagonista devido à sua preferência pelo ideal de beleza feminina na forma de mulheres anãs, um desvio da normalidade e um argumento que chega ao limite do “politicamente correto”, mas que a autora desenvolve com segurança, esquivando-se com bom humor e ironia de uma eventual interpretação injustamente preconceituosa:

“Gostaria de ficar tranquilo ao lado da minha esposa, aqui nesta cidadezinha pacata onde escolhi passar meus últimos anos de vida, mas descobri que há uma anã morando não muito longe da minha casa. Eu a vi algumas vezes no ônibus em que vou ao centro receber minha pensão de aposentado ou fazer compras. Ela é jovem, tem o tronco excepcionalmente desenvolvido e as pernas miúdas. Em seu rosto largo, os olhos saltados como os de uma rã, têm um brilho úmido e lacrimejante. Seus cabelos ralos também brilham, oleosos, precisados de um xampu. Costumo desviar os olhos de corcundas, pernetas obesos, esqueléticos ou de qualquer outro tipo esdrúxulo, mas não consigo deixar de olhar para as anãs, discretamente, é verdade.” (pág. 13)

Um dos melhores contos desta edição, ‘Freio nos dentes‘ (leia aqui o texto completo disponibilizado pela autora em seu site oficial) poderia constar de qualquer antologia sem fazer feio, na verdade me passou uma sensação de estar lendo Lygia Fagundes Telles, o que definitivamente não é pouca coisa. Novamente não é um “vício” que norteia a criação, mas sim as reminiscências da protagonista que retorna ao Brasil depois de muitos anos para visitar a mãe já idosa e muito doente, um acerto de contas com o passado e a revelação sobre os motivos do afastamento entre mãe e filha.

“Quando nasci, depois da Gilda e do Marcos, ela olhou meu rosto de bebê e achou que eu parecia um anjo. Por isso me deu o nome de Ângela. Mais tarde, quando já se haviam passado dezoito anos daquele engano, ela disse que eu só era anjo no nome. Ou então, era o anjo caído, o anjo das trevas. O Leo começou a frequentar nossa casa uns dois anos depois do nosso pai ter se casado de novo. Tinha dez anos menos do que ela, mas ninguém dizia, ou ela dizia que ninguém dizia. A verdade é que ainda era muito bonita e se arrumava cada vez mais demoradamente e com mais cuidado. Leo cheirava a fumo de cachimbo da melhor qualidade, um fumo dourado que guardava numa bolsinha de couro. Ele mesmo era dourado, cabelos, sobrancelhas.” (pág. 57)

Em ‘Numa folha de papel’, a epígrafe de Sônia Peçanha resume o espírito do que estamos prestes a ler: ‘Viver? Um vício. Só a morte cura’. Um executivo bem sucedido em sua carreira e que sempre priorizou o trabalho em detrimento da família é subitamente tomado por um forte sentimento de iminência da morte em uma de suas muitas viagens. Este pressentimento ocorre em pleno voo, levando-o ao desespero e a rever todos os seus conceitos. Será que há tempo para o pobre homem se reabilitar? Talvez ainda houvesse tempo para uma carta… O leitor é brindado por um final surpreendente.

“Fechou os olhos e tentou rezar. Era católico, pelo menos fora batizado e fizera primeira comunhão. Talvez Deus o ouvisse. ‘Me poupe, Senhor Deus, Pai Eterno. Se o senhor me deixar viver, a partir de agora irei à missa todos os domingos e darei dinheiro para as obras sociais da igreja. Dez por cento do que ganho. O dízimo.’ Pensou um pouco. ‘Dez por cento é muito. Cinco por cento já é bastante.’ Sentiu logo que estava no caminho errado, não era hora de barganhar com ninguém menos do que Deus, Todo-Poderoso. Na verdade, não adiantava rezar, nem pedir, nem implorar. Se não lembrara de Jesus, nem da Virgem Maria, nem dos santos e anjos antes, recorrer a eles naquele momento era falta de vergonha na cara.” (pág. 153)

Um livro recomendado, daquele tipo fácil de ler e difícil de largar. Clique aqui para conhecer o site oficial da autora e aqui para a página do livro ‘Vícios Ocultos no Facebook. Leia aqui a resenha do Mundo de K para o romance ‘A Bela Helena’ e outras informações sobre Miriam Mambrini.

Fonte: http://mundodek.blogspot.com.br/2016/02/miriam-mambrini-vicios-ocultos.html

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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