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Li dois ótimos livros nesse mês de janeiro:

Hibisco roxo‘, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, Companhia das Letras, e ‘Véspera de lua‘, de Rosângela Vieira Rocha, editora Penalux.

Junto-os aqui, porque foram lidos em sequência, e por terem pontos em comum. Ambos são escritos por mulheres que, aliás, andam brilhando na literatura e ganhando os melhores prêmios literários do país, e narrados em primeira pessoa pelas protagonistas.

As diferenças entre os romances, porém, são grandes. A protagonista de Chimamanda é uma adolescente, que vive sob o jugo de um pai  tirano, a de Rosângela uma mulher experiente, livre para escolher sua sexualidade e seus caminhos. De comum, ainda, percebemos que em qualquer das duas situações, a de dominação e a da (quase) liberdade, a mulher tem que enfrentar barreiras internas e externas muito próprias de seu gênero.

 

‘Hibisco roxo’ traz um novo enfoque do tema da dominação e da submissão, representado aqui pela religião católica levada para a Nigéria pelos colonizadores ingleses, se superpondo às crenças locais; pelo pai se impondo tiranicamente à mulher e aos filhos; pelos ricos fazendo dos pobres seus vassalos, como nos feudos medievais, através da benemerência, que às vezes se limita ao convite para  uma lauta refeição uma vez por ano.

A história é narrada em primeira pessoa por Kambili, que vive com a família rica e católica numa cidade da Nigéria, no final do século XX, sob a dominação do pai fanaticamente religioso.

A chegada da religião católica, trazendo um novo deus e uma forma de viver diferente da cultura original, não acabou com as crenças locais, que encontram ressonância na alma da população, mas que o pai de Kambili considera bárbaras, hereges e repudia  de forma violenta.

O fanatismo religioso desse homem, e seu desejo de que os filhos alcancem uma perfeição ‘à inglesa’, transformam a vida da família num inferno. Os filhos devem ser sempre os primeiros da turma, têm horários para tudo, sequer podem conviver com o avô paterno, um pagão. A qualquer deslize recebem castigos físicos terríveis, que se alternam com carinhos e presentes. Papa é um homem contraditório, dominador, cruel e ao mesmo tempo altruísta, ajudando a quem precisa.

Conhecemos a gente e os costumes da Nigéria através do convívio de Kambili e seu irmão com a tia Ifeoma, professora universitária, e seus filhos. É na casa pobre da tia, num campus universitário em decadência, que descobrem valores muito diferentes dos de seu pai. Junto com eles, em conversas, passeios e visitas, vamos conhecendo um país pobre, corrupto e caótico, mas caloroso e alegre, sob vários aspectos semelhante ao nosso.

 

‘Véspera de lua’ é um livro ousado e forte. Fala do universo feminino no que ele tem de mais próprio e exclusivo. Rosângela escreve em primeira pessoa, e é desse ponto de vista que se consegue ir mais fundo nas angústias, dores, sentimentos e desejos do personagem, o que ela faz com maestria.

Paula, sua protagonista, enquanto vive um doloroso período de tensão pré-menstrual, na véspera da lua nova, está também às vésperas de terminar mais um relacionamento. Só sabemos, de inicio, que não sente mais tesão por E, até finalmente descobrirmos que E é Esther, sua companheira.

A vida se repete. Esse final de relacionamento, essa ausência de desejo pela parceira que se instala pouco a pouco até não ser mais possível suportar, já aconteceu antes. Um dèja-vu frustrante, um fracasso que não cessa, desde Lúcia, que fez Paula descobrir sua homossexualidade aos 17 anos.

Rosângela fala com realismo, crueza mesmo, do mau estar e das cólicas femininas no período pré-menstrual, que nem os bidês com água quente, os mingaus e os chás conseguem mitigar. Descreve o universo das lésbicas, sem valorizá-lo, ‘recusando a divisão empobrecedora do mundo em hetero e homossexuais’. Num trecho poético, faz a apologia da vagina, essa “flor úmida”, que nenhuma palavra consegue nomear apropriadamente.

Véspera de lua é sem dúvida um livro ímpar, pela sua temática e pela coragem da autora em abordá-la. Muito bem escrito, prende o leitor desde o início, e o leva, curioso, até a página final.

Miriam Mambrini
02/fevereiro/2016

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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