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Os saltos grossos dos sapatos de Maricarmen surram o tablado, abafando no estrépito do sapateado o som das guitarras e dos olés. Braços erguidos, cabeça para trás, a bailarina se concentra nos passos e castanholas,  alheia ao público que boceja e pousa nela olhos indiferentes. Em volteios ritmados, ondula a saia nos altivos movimentos da dança. Doem as costas, pesam os braços, as pernas resistem ao seu comando, mas a vontade doma o corpo gasto e o faz executar os movimentos a que se acostumou em toda uma vida. Na platéia, focaliza ao acaso um rosto de mulher, expressão irônica, pequeno riso sarcástico. Somem, na ponta aguda desta dor, o tablado pobre, os turistas baratos,

a sua volta, o povo aplaude, olés palmas gritos guitarras e a voz do cantor se espremendo nos gemidos do cante hondo. O corpo sinuoso se verga  esguio leve, as pernas ágeis tremem no sapateado, mal erguendo os pés do chão. Reconhecem todos: é a melhor bailarina de flamenco da Andaluzia. Olé e vê o brilho dos olhos de Pablo, os cabelos negros de Pablo. Olé e os rapazes jogam no tablado cravos e rosas vermelhas. Pega um cravo, coloca entre os seios,

seu rosto se transmuda numa máscara de paixão e dor. O patos do flamenco é uma pétala escorrendo lágrima. O sorriso sarcástico da mulher se dissolveu numa expressão de tédio. Alguém se levanta e sai. No breve consolo de um flash, o rosto de Maricarmen se ilumina. O suor escorre traços úmidos na maquiagem derretida. Bolas brancas em fundo vermelho, o vestido de cetim se cola à cintura espessa. Sente-se à beira da exaustão,

quando é a melhor hora, tomada dominada na entrega total à música e ao ritmo, orgasmo que se prolonga ao som de palmas e olés até que deixa para trás o último acorde, levanta os braços na pose final e chegam as flores de Pablo, que a encontram ainda

ofegante, Maricarmen recebe as palmas ralas da platéia, que os guitarristas e o coro de moças e rapazes reforçam num indignado respeito, afinal, ainda é a rainha dos tablados da Andaluzia. Brotando do fundo de cada peito, entretanto, uma velada satisfação anuncia que se aproxima a hora e a vez de alguém. Maricarmen olha preocupada a coxia, não trouxeram suas flores, o público já se retira e não podem faltar as flores,

é por entre cravos e rosas que os olhares se procuram após cada espetáculo, sabendo que em seguida virão os beijos na rua escura a caminho da casa com seu pátio perfumado de jasmins, o braço de Pablo enlaçando sua cintura de ampulheta, estrelas voando pelo céu da Espanha no momento em que

a segunda bailarina traz a corbelha e a coloca à sua frente. O público, atraído pela novidade, dirige ao palco sua atenção por mais um instante e ouvem-se as últimas palmas. Com orgulhoso movimento da cabeça, Maricarmen agradece, tomando a mão da moça para incluí-la e ao coro na breve glória dos aplausos, dos quais logo só restará o eco na platéia vazia. A jovem bailarina sente que é a hora. Quem sabe a sua vez. Com inesperada emoção, em sussurros, avisa à rainha dos tablados que o florista não manda mais flores se não for paga a conta que Maricarmen deixou crescer por toda a temporada.

Desce a cortina, gasto manto de veludo púrpura, varrendo a corbelha e jogando ao chão cravos e rosas feridos de morte.

Miriam Mambrini
conto

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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