Share on Facebook
Share on Twitter
Share on Google+
Share on LinkedIn
+

Escrevi esta crônica em 2012, e aproveito a data para compartilhá-la com vocês. Semana que vem sairá do forno, quentinho, o texto deste ano.

Com o açodamento que lhe é peculiar, o tempo correu, empurrou todos os meses para trás e, num piscar de olhos, nos deixou em dezembro, diante do Natal.

Não estaria sendo verdadeira se dissesse que, para mim, este é um momento abençoado, de paz e alegria. A cidade está toda iluminada, com a grandiosa árvore da lagoa, luzes coloridas nas ruas, decoração espetacular nos shoppings, mas não consigo me entregar completamente ao encantamento da festa. Faz um calorão danado, há um corre-corre, uma afobação, um trânsito de louco e inúmeros almoços, jantares e outras comemorações de fim de ano às quais não posso faltar.  E há, naturalmente, os amigos-ocultos. O número de crianças, adultos e amigos, claros ou ocultos, da minha lista cresce a cada ano.

Não sou daquelas abençoadas criaturas que largam pra lá o aborrecimento de dar presentes e, na última hora, se enfiam numa loja qualquer para comprar lembranças impessoais, cumprindo do modo mais leve possível a incômoda obrigação. Ou das ainda mais felizes que são contra o consumismo da data, que deveria ser de fervor religioso, de confraternização universal, e, por princípio, não ficam reféns do comércio.

Me sinto na obrigação de presentear a família, os amigos, os porteiros, os empregados, os que foram gentis comigo em um ou outro momento. Isso sem falar nos cinco ou seis amigos ocultos. A cada um quero dar uma lembrança pessoal, algo de acordo com o seu gosto e a sua personalidade, algo de que realmente gostem. Talvez isso se explique, em parte, por eu pertencer a uma geração mais dada à preservação de costumes antigos, e mais atenta aos desejos dos outros. Ou está no meu DNA, pois minha mãe fazia do ato de presentear um culto, e nunca esquecia ninguém na sua lista de natal.

Parto para as lojas armada de uma lista com muitos nomes e pontos de interrogação. O que dar a minha cunhada, que tem tudo? E aos sobrinhos adolescentes? Minha amiga oculta ficará satisfeita em ganhar uma lembrança dentro do limite de preço fixado?

A tarefa de comprar presentes é árdua, exige tardes e mais tardes, além de outras tantas manhãs, entrando em lojas, escolhendo, pagando, saindo carregada de bolsas e embrulhos, pés doendo, calor, cansaço. Por que será que os brinquedos são sempre tão volumosos? E por que os objetos que me agradam custam sempre tão caro?

O calvário finalmente acaba. O chão, em volta da árvore está coalhado de volumes coloridos, com laços e enfeites. Suspiro, aliviada e chego a me sentir feliz, ou, pelo menos, com a sensação do dever cumprido.

Dia 22, dia 24, dia 25. A cada festa natalina chego carregada de promessas de alegria. Infelizmente, nem sempre essas promessas se cumprem, e muitos de meus presentes são recebidos com indiferença ou decepção. Observo, contente, os olhos que brilham enquanto as crianças rasgam os papéis do embrulho, abrem as caixas e tiram os brinquedos que comprei, mas esses são logo abandonados, pois surge uma novidade atrás da outra.

A roupa não foi do agrado da amiga, que escondeu a decepção o melhor que pôde. A outra, que ganhou o comprido brinco de prata, não tinha a orelha furada. Uma das xícaras de cafezinho chegou quebrada ás mãos da prima. O livro do irmão já foi lido, a camisola da sogra ficou apertada, o filho preferia uma simples bermuda àquele lindo São Jorge vermelho, a sobrinha sequer abriu o embrulho. Quanto a mim, ganhei um porta-retrato e um nécessaire, que, tenho a impressão, foi o mesmo que recebi no último Natal.

Pra que tanto esforço, meu Deus?  Tomo mais uma vez a decisão do ano passado, e do anterior, e do anterior: No próximo Natal não compro presente pra ninguém.

Miriam Mambrini
08/12/2012

Share on Facebook
Share on Twitter
Share on Google+
Share on LinkedIn
+

Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

More posts by Miriam Mambrini

Leave a Reply