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Mais um Natal. E se ele chega, chega também o fim do ano. Esse 2015 não foi lá muito generoso com o Brasil, nem preciso dizer as razões. Vou lembrar uma só e entendam como quiserem a expressão: O rio de lama.

Todo mundo já leu, discutiu, ou escreveu sobre esses fatos terríveis, que nos estarrecem e nos deixam desesperançados. Mas quem quer falar de Natal não deve trazer à baila esses assuntos. Natal é época de congraçamento, luz e esperança. Quem sabe nos anos que virão a natureza comece a ser deixada em paz por nós, humanos, estranhos seres sempre conspirando contra nós mesmos, tramando a própria extinção?  Esperemos também que, já em 2016, se inicie uma era de maior respeito, mais justiça e mais amor entre as pessoas.

O que se espera do Natal é um clima de paz e harmonia, mesmo para quem não é cristão. Fiquem tranquilos, não vou colocar aqui uma consoante adversativa (mas, porém, todavia, contudo, para quem já esqueceu as aulas de Português do colégio) e falar dos atentados pelo mundo afora, a começar por Paris, do temível Estado Islâmico. Isso também, claro, não é assunto para uma crônica de Natal.

Vamos esquecer o lado escuro desse pré-Natal. No lado luminoso, para nós, cariocas, está a árvore de Natal da Lagoa reconstruída e inaugurada a tempo, após outro acidente, este pequeno, não mais do que um golpe de vento. Admiro a prontidão com que se deu solução a esse problema. A árvore ficou um pouco menor. E daí? Mais grandeza existe no trabalho das pessoas responsáveis por esse pequeno milagre do que no tamanho da árvore. Pra dizer a verdade, o tamanhão é sinal de competição. A árvore de Natal da Lagoa é a maior do Brasil! Não, do mundo! Já repararam como nós, brasileiros, temos mania de falar que nossas coisas são as maiores do mundo? A árvore da Lagoa em 2015 é menor do que a de São Paulo. Menor do que a maioria das belas e suntuosas árvores mundo afora, quem sabe quantas, nos anos anteriores, já maiores e mais belas do que a nossa.

Vejam que presente maravilhoso o Natal que se aproxima trouxe para nós, cariocas, e para todos os brasileiros: O Museu do Amanhã, localizado na bela Praça Mauá. E nós que não havíamos percebido que essa praça, espremida entre prédios, cercada de boates para marinheiros, sempre quente, coberta por um pesado viaduto era um espaço tão luminoso, lugar onde os olhos da cidade se abrem para a Baía de Guanabara. E como é impressionante a arquitetura do museu, apontando para o mar e para o futuro!

Há poucos anos, escrevi uma crônica de Natal falando de minha vontade de dar presentes que agradassem aos presenteados e da decepção de ver que nem sempre atingia o objetivo.  Este ano estou menos ansiosa. Ainda não cheguei à perfeição de não comprar presente algum, mas já não dou tanta importância a isso. Em vez de me esfalfar andando por ruas escaldantes ou shoppings apinhados atrás de presentes extraordinários (coisa que eles nunca são), tenho deixado de lado as compras e encontrado amigos queridos.

Em geral esses encontros são realizados a volta de mesas, onde consumimos boa comida e bons vinhos. Tenho engordado, mas e daí? Pessoas de mais idade devem mesmo ser gordas. Pelo menos gordinhas. Nada de caras chupadas, pregueadas, infelizes. É bem mais agradável abraçar um gordinho alegre, papai-noel, por exemplo, do que um esbeltíssimo varapau.

E os livros, esses meus grandes amigos? No Natal, eles têm que estar presentes, já que são para mim uma companhia constante o ano inteiro. Li que o livro físico, papel e tinta, capa e orelhas, continua a ser mais vendido do que o e-book. A imaterialidade do livro eletrônico tira muito da graça existente no objeto livro, que se pode segurar, tirar e colocar na estante, abraçar, marcar com a fotografia de alguém querido, que se olha de vez em quando com um sorriso.

Num desses almoços de congraçamento, combinou-se que todos dariam de presente… livros. Quem já tivesse lido o que ganhou, podia trocar o seu com um amigo. Em último caso, a livraria resolveria o problema.

Éramos 10. Nenhum livro foi repetido e ninguém quis trocar. Cada um saiu feliz com o seu livro para ler. Não deixou de ser, pelo menos para mim, um minúsculo milagre de Natal.

Miriam Mambrini
16/12/2015

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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