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‘Meninas em tarde de sol’ é um conto antigo, mas inédito. Possivelmente vai entrar no meu próximo livro do gênero. Espero que gostem.

As meninas chegaram à tarde para o velório, usando sandálias e blusas claras de algodão. Fazia muito calor. O sol de fevereiro crestava as plantas no jardim e fazia a casa das solteironas Matilde, Malvina e Mafalda, sempre tão bem cuidada, parecer desbotada e opaca. Daí a uma semana seria o carnaval. As escolas de samba e os blocos, nos últimos preparativos, ensaiavam diariamente, mas naquela tarde o barracão onde o bloco do bairro ensaiava, que ficava no final da rua, estava tão tranquilo e silencioso quanto numa sexta-feira santa.

A sala parecia muito escura pelo contraste com a luminosidade de fora. As meninas passaram diante das mulheres que cochichavam sentadas nas cadeiras de espaldar alto e foram até o caixão forrado de tecido roxo pousado sobre a mesa de jantar. Nele estava o corpo da mais velha das solteironas, a Matilde.

Fizeram o sinal da cruz e deram uma espiada na defunta. A pele parecia couro de bolsa muito usada, a ponta caída do nariz quase entrava na boca. O terço enrolado nas mãos cruzadas se escondia sob as flores que começavam a murchar.

Lena teve vontade de tocar as mãos amareladas para sentir se, mesmo naquele calor, Dona Matilde estava gelada como diziam que ficavam as pessoas que morriam. Já tinha ido a outros velórios, mas nunca tocara a pele de um morto. Você já foi a quantos?, perguntou a Marili. Quantos o quê? Velórios, ora! Três. Lena se entusiasmou: Ganhei. Já fui a quatro. E sou um ano mais moça do que você.

Marili a arrastou para longe do caixão antes que ela pudesse tocar a mão da defunta. Tinham que dar os pêsames às irmãs, o que fizeram com seriedade, imitando os adultos. Meus sentimentos e um aperto na mão seca de Mafalda, agora a mais velha, magra e chorosa, meus sentimentos e outro aperto de mão, agora na mão carnuda de Malvina, a caçula, passada dos quarenta, mas ainda apetitosa. Pelo menos era o que Lena ouvira o pai comentar com o tio, certa vez em que estava com eles na rua e Malvina passara. Disseram o que as mães lhes pediram: Não tinham podido ir ao velório mas tentariam chegar a tempo do enterro. A mãe de Marili tinha seis filhos para cuidar, dois dos quais com catapora, a de Lena se esfalfava no armazém, muito movimentado por causa da proximidade do carnaval. As meninas estavam ali para representá-las.

Foram se sentar em banquinhos trazidos da cozinha, quietas e compenetradas, só os olhos se mexendo e observando tudo: os móveis escuros e enormes, os retratos de gente séria em molduras ovais pregados na parede, o pequeno rasgão no tecido roxo adamascado do caixão, os gestos nervosos e rápidos com que Dona Ema, mulher do prefeito, se abanava, arejando o rosto suado e redondo, os peitos grandes de Malvina, quase arrebentando os botões da blusa preta, numa sensualidade imprópria para a ocasião, as lágrimas de Mafalda, que desciam de um olho e escorriam pela aba do nariz, de onde eram removidas por um amassado lenço azul.

Ela chora só com o olho direito, comentou Lena, depois de um curto silêncio, com vontade de rir. Marili deu uma risada, logo controlada pela desaprovação de rostos amarfanhados que se voltaram para elas.

O calor sufocava. Havia na sala um cheiro de vela, flores murchas e velhice. Um raio de sol varou a janela e deixou no ar uma esteira de luz, onde grãozinhos de poeira brilhavam feito purpurina. As meninas ficaram observando, absortas, a dança dos pontinhos luminosos.

Uma das mulheres puxou o terço. Vozes lastimosas ergueram-se no calor, enquanto as mãos desfiavam os terços de bolinhas pretas. As meninas juntaram-se à reza, que intercalavam com cochichos. Ave Maria cheia de graça, no velório só tem mulher, o senhor é convosco, aqui é casa de moça, nem sobrinho elas têm, bendita sois vós entre as mulheres, você acha que a Malvina ainda pode?, bendito é o fruto do vosso ventre, o quê?, casar, ora! Jesus.

Santa Maria, dizem que ela e o prefeito, mãe de Deus, mas ele é casado! E daí?, rogai por nós pecadores, falei casar, se a Malvina ainda pode arranjar marido, agora e na hora da nossa morte, o prefeito pode se separar, não pode?, amém, amém.

As duas dirigiram o olhar para a mulher do prefeito, que rezava com os olhos semi-abertos, o terço comprimido contra o peito de tábua, depois para os seios exuberantes de Malvina. Uma planície preta, duas negras montanhas gêmeas. Marili imaginou o prefeito hesitante diante daqueles acidentes geográficos. Percorria a planura ou escalava as montanhas? Acho que ele prefere as montanhas, sussurrou para Lena, que não entendeu nada, mas achou muito engraçado. As duas riram baixinho, as mãos tapando as bocas.

A finada Matilde pareceu erguer o nariz numa repreensão. Pai nosso, que estás no céu, rezaram as mulheres. A barriga da morta coberta de flores, o peito chato de Ema, os seios fartos de Malvina, o queixo tremelicante de uma beata, o olho direito de Mafalda chorando sem ser acompanhado pelo esquerdo, as vozes lamentosas, a carne morta, a carne viva ou talvez aquele calor, a luz entrando, a proximidade do carnaval, o fato é que cada vez que o olhar de Marili encontrava o de Lena vinha uma vontade incontrolável de rir, sufocada a duras penas, fazendo as barrigas doerem no esforço.

No curto silêncio que se fez entre o final do padre nosso e o início de mais uma ave-maria, o som de uma cuíca penetrou no velório sem convite, guinchando alegre e irreverente. As meninas não agüentaram mais. O riso reprimido finalmente saiu numa explosão de gargalhadas dobradas e sonoras. Correram para fora da casa, quase sufocadas, sem ver as caras escandalizadas, nem ouvir os comentários, falta de respeito, onde já se viu?, essas meninas não têm mesmo compostura!.

Sentaram-se no meio-fio, e riram tudo o que tinham que rir. Depois o riso foi diminuindo e parou. É gozado, velório, disse Lena. Mas chato, falou Marili. Mamãe vai ficar uma fera quando souber que a gente riu, disse Lena. Mamãe também, concordou Marili.  Ficaram em silêncio, já sem vontade de rir, pensando na bronca que as esperava.

Da casa, vinha o murmúrio das vozes soturnas rezando o terço, do barracão no final da rua, o ronco da cuíca, ao qual se juntou o ritmo de um pandeiro e a batida dos tambores e dos surdos. Eu queria tanto ver o desfile!, disse uma. Só que mamãe não vai poder me levar. Nem a minha, disse a outra.

O ritmo foi esquentando e de repente ouviram-se as vozes cantando o samba. As meninas se entreolharam. De qualquer jeito vai ter bronca, disse Marili. É, concordou Lena. Vamos? Vamos. E saíram correndo para o barracão.

Miriam Mambrini

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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