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Em agosto de 2010, fui a João Pessoa e conheci Maria Valéria Rezende, que agora, em 2015, muito justamente ganha o Jabuti pelo romance “Quarenta dias”. O texto abaixo, nada mais que um rascunho feito logo que voltei ao Rio, conta algumas impressões dessa viagem e da pessoa interessantíssima que é Maria Valéria.

Nas janelas de um casarão perto do Ponto dos Mil Réis, em João Pessoa, os rostos sorridentes de Soninha, Vania, Marilena e Andrea acompanham minha chegada. Venho direto do aeroporto, ainda um pouco tonta pela gripe, que me deixou surda no voo e me obrigou a seguir um dia depois das outras. Dois lances de uma escada de madeira, e lá estou eu no salão do velho sobrado, onde vão acontecer as mesas do “Agosto das letras”. De início vazio, apenas umas poucas cadeiras de plástico ocupadas, aos poucos, o salão vai-se enchendo de pessoas vindas de cidades do interior, de alunos de letras e escritores. A Paraíba sempre se destacou na literatura e a tradição continua.

Logo começa a primeira mesa, de que participa nossa Marilena – a primeira a falar. Expõe com objetividade em que consiste o Projeto Estilingues e, ajudada por nós outras, estilinga alguns “Amores Vagos” (primeira coletânea de contos produzida pelo grupo para ser distribuída gratuitamente).

O mediador da mesa, que usa um chapeuzinho simpático, vai apresentando os demais palestrantes, deixando para o final Maria Valéria Rezende. Além de freira, educadora, agitadora cultural, anfitriã perfeita, excelente escritora, Irmã Valéria conhece todo o “vasto mundo” do ocidente ao oriente, pelo direito e pelo avesso. E tem uma animação invejável.

O assunto da primeira mesa sobre como atrair leitores se estende em comentários e embola no da mesa que se segue, que trata das relações entre a literatura e o computador. Fico com muita vontade de fazer Poe-mails, como o Amadeu, ou dialogar em haikais pela internet como a Valéria e a Alice Ruiz.

É um sábado de boas palavras e de gente inteligente, em que não fazem feio nossos livrinhos de capa colorida, que todos folheiam com interesse. A carismática Maria Valéria é a estrela da tarde. Eu já lera “O voo da guará vermelha” e, em João Pessoa, ganho o “Vasto mundo”, seu primeiro livro, de contos, que me encantou ainda mais do que o romance, acho que por sua simplicidade. Não é fácil ser simples e produzir boa literatura. Mas o encanto maior é com o ser humano Maria Valéria, essa mulher da minha geração, cheia de vitalidade e idealismo.

À noite, ao sairmos do casarão e caminharmos pelas ruas antigas à luz das estrelas, Vania e eu fazemos um dueto de tosses até simpático na afirmação de nossa solidariedade estilinguesca, não fosse quase arrebentar nossos peitos.

João Pessoa é agradável, com seu vento praieiro, seus coqueiros, e a beleza dos velhos conventos e casarões, dos quais muita história pode ser contada, como nos mostra Valéria, nossa incansável cicerone. Só não consegue acabar com qualquer gripe, como vaticinou nossa freira-escritora-anfitriã antes da minha ida. Tanto eu como Vania ainda nos arrastamos fungando e tossindo, por muitos dias, pelas ruas do Rio.

Miriam Mambrini
Agosto 2010

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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