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Ele viveu muito, quase 15 anos, e isso, para os cachorros, significa o mesmo que passar dos 100 para nós humanos. Foi o último a nascer, numa ninhada de 7 pequenos labradores, e era o menor, o que parecia mais fraco.

Um dos cachorrinhos daquela ninhada de filhos de Kênia e Jambo seria meu. Foram partindo todos, levados por seus novos donos, ficaram apenas o que eu tinha escolhido e a quem dera o nome de Borromeo, e ele. Borromeo era arisco, não se deixava acariciar, estava sempre fugindo de mim e se escondendo sob plantas rasteiras, mas Catu se aproximava, curioso, e buscava um carinho. A menina da casa onde nasceram me aconselhou a levá-lo e não ao outro, pois ele é que gostava de mim. Ninguém se interessara por ele, com certeza ia sobrar. Acabei ficando com os dois.

Catu já tinha nome, que era o do macaquinho do filme Tainá, e significava amigo. Quando se mudaram para nossa casa, ele logo se revelou companheiro, querendo ficar sempre perto de nós. Borromeo, confiante, certo de ter sido o escolhido, se mantinha distante, independente, Catu precisava assegurar seu lugar, era um enjeitado.

Cresceram juntos. Catu assumiu a liderança. Era ele quem mandava. E, à medida que crescia, uns pelos suspeitos e duros surgiam abaixo de seu pescoço, dando-lhe um aspecto de leãozinho. A aspereza do seu pelo contrastava com a maciez do de Borromeo. Mesmo assim, se pareciam, e era um encanto vê-los passeando juntos, levados pela coleira, como dois nelores em miniatura puxando uma invisível carroça. Se deixávamos o portão aberto, Borromeo fugia. Catu hesitava, tentado pela aventura da liberdade, mas assustado com a possibilidade do portão se fechar para sempre. Quando finalmente ousava, não demorava muito a regressar.

O tempo passou depressa e um dia não tínhamos mais Borromeo. Achamos que Catu não iria resistir muito, eram tão próximos, como podia um viver sem o outro? Mas  Catu sobreviveu, satisfeito com sua condição de filho único. Para ele ia toda a ração e todos os cuidados.

Viveu assim, dono do terreno e solitário, por um ano e meio. Então surgiram dois intrusos, um lindo casal de labradores de 4 meses. Foi um choque. Então ele não era mais o senhor da casa e dos donos, agora encantados com os filhotes brincalhões? Ficou sisudo. Nunca foi um cachorro alegre, de brincar e sorrir, porque os cachorros sorriem, quem os conhece de perto reconhece o sorriso em sua cara. Borromeo, malandro, às vezes sorria, mas Catu era um sujeito sério. Mais sério ficou depois da chegada de Bartô e Bela. Talvez achasse que, sendo um senhor, devia se mostrar compenetrado e assumir a gravidade de quem é mais sábio e experiente. Exatamente por ser sábio, compreendeu que melhor seria aceitar os novos companheiros e deles tirar o proveito que pudesse.

Nunca convivera com uma fêmea, agora tinha Bela, meiga e brincalhona, que gostava dele e deixava-se acariciar por sua pata ou por sua língua. Catu renovou a energia, recuperou a vitalidade. Queria participar das correrias e banhos de mar com os outros. Não gostava quando púnhamos a coleira nos jovens e o deixávamos livre, adorava uma corrente. Se os outros iam levados pela trela, por que não ele?

Bartô cresceu muito, seu porte, sua agilidade e sua força se tornaram uma ameaça para o líder da matilha de nossa casa. Catu não entregou os pontos. Bartô provocava, atacava-o pelo seu ponto fraco, as patas traseiras deformadas pela artrose, levantando-o no ar. Catu suportava a cambalhota e se voltava para o adversário, arreganhando os grandes dentes amarelados como as teclas de um piano gasto, que até então só tinham servido para roer ossos ou abocanhar as pobres gambás que ousavam invadir seu território. Quando conseguia, dava uma dentada no oponente. Era ele o macho alfa, e disso não abriu mão até o fim.

A velhice lhe concedeu muitas regalias: ganhava pão diretamente da mesa pelas nossas mãos no café da manhã, e à noite podia entrar em casa e se deitar a nossos pés para cochilar satisfeito, enquanto os outros o olhavam invejosos pela porta de vidro. Se não fosse sua eterna luta com Bartô, talvez perdesse parte de suas vantagens. Ou não, pois já tinha tantos anos de casa que bem merecia um tratamento diferenciado.

Um dia teve uma convulsão e ficou paraplégico. Viveu ainda dois dias, latindo agoniado por não conseguir se locomover ou talvez por sentir dores. Finalmente, morreu. Mas não deixou nosso jardim, onde foi enterrado, nem nosso corações. Mora e morará sempre nas nossas melhores lembranças.

5 de agosto de 2015

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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