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O OUTRO
Crônica

“L’enfer cést les autres”
Jean-Paul Sartre – Huit-Clos

Sou uma mulher sozinha. Minha mãe sempre dizia: casa, Sandra, que é horrível ficar sozinha. Ela entendia dessa coisa de ser sozinha, pois era mãe solteira, e desde que eu saí de casa, muito cedo, ficou só, no sítio onde morávamos.
Casei, separei, casei de novo, de novo separei, e sou uma mulher sozinha, sem marido nem filhos. Não acho que minha mãe tivesse razão. Prefiro ficar só. Os outros são perigosos, é uma luta constante. Um subjuga, o outro é subjugado, um fere, o outro é ferido, um mata, outro morre. E vice-versa, pois o que hoje subjuga pode ser o subjugado de amanhã.

Em meu pequeno apartamento, já viveram um canário e um peixe vermelho. Eu os possuía como aos objetos, a mesa, o travesseiro, a caneca do café com leite, mesmo assim às vezes tentavam me dominar. O peixe rodava no aquário redondo, sem ir a lugar algum. Por mais que eu pedisse pra parar, ele continuava, rodando, rodando, com aqueles olhos botocudos e o leque estraçalhado da cauda. Aquilo me deixava louca, louca. Um dia, não aguentei mais aquele nadar eterno sem destino. Levantei o aquário acima da cabeça e joguei no chão. O peixe corcoveou por uns instantes no assoalho molhado, entre os cacos de vidro. Peguei-o com a pá e joguei no lixo, junto com os cacos. Era ele ou eu.

Soltei o canário num dia de fúria, irritada porque ele não cantava. Ele tinha que cantar, eu o comprara para ouvir seu canto. Ele teve sorte: quando o tirei da gaiola, minha vontade foi espremê-lo até ele ficar todo mole na minha mão, mas alguma coisa, a aflição de sentir a vida se esvair à medida que o apertava, talvez, me fez abrir os dedos com a mão estendida para fora da janela.

O canário deve ter sido comido por um gato faminto ou, faminto ele próprio, sem saber onde encontrar comida, foi parar numa janela qualquer e logo aprisionado em outra gaiola.

Nos dias de fúria, há uma desordem dentro de mim. Mando marido embora aos berros e sapatadas, quebro o aquário, tiro o canário da gaiola e o lanço zonzo no ar viciado da rua, vou à caça de baratas nos cantos de meu conjugado e as esmago com o pé, saio à rua fugida da minha gaiola, zonza como o pássaro, e logo volto, com medo dos monstros que estão por toda parte.

À noite durmo e sonho. Estou dentro de uma flor enorme, de cheiro enjoativo, cujas pétalas se fecham pouco a pouco até me aprisionarem. Meus dois maridos voltam juntos gritando Sandra, Sandra, uma barulheira que dói no ouvido. Exigem que eu lave suas roupas sujas, que prepare um leitão assado, que me deite com eles. Me subjugam. Acabo na cama espremida entre os dois, atrás o que gostava de sexo anal, na frente o sempre do mesmo jeito. O peixe vermelho roda de novo aflitivamente no aquário redondo e sou obrigada a pesca-lo com a mão e apertá-lo até que vire uma massa esbranquiçada e nojenta. O canário voeja sobre a gaiola e me empurra com o bico, me obrigando a entrar pela porta aberta para então fechá-la, me encarcerando entre as grades. Nem dormindo estou livre do perigo.

De manhã e à tarde, bate na porta o garoto da padaria da esquina para buscar as empadas e pastéis de forno que asso para venderem. Reparei que ele mexe as narinas feito um gato, para sentir o cheiro das guloseimas. E me olha, pidão. Mas não são só as empadas quentes que ele quer. Seus olhos deslizam pelo meu corpo que começa a se esparramar fora de seus limites. Detesto que olhem para o meu corpo.

Ultimamente, sempre que ele chega tenho um mau pressentimento. Desconfio que ele está pensando em me enfiar no forno quente como se eu fosse uma enorme empada. No meu próximo dia de fúria, posso me antecipar e fazer com o garoto o que ele quer fazer comigo.

O outro é o inimigo que subjuga, encarcera, mata. O garoto, hoje, é meu único outro. Eu sou o outro dele. Vamos ver quem age primeiro.

Miriam Mambrini
(conto publicado em 2014 na revista Pessoa)

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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