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SEMPRE SEU

Conto de Miriam Mambrini

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: quarta-feira, 6 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Contato

Prezada Laura,
Descobri seu e-mail por acaso, quando me enviaram uma corrente em que estava o seu nome. Aproveitei para lhe mandar essa mensagem e contar que voltei aqui para Nova Friburgo. A gente acaba sempre voltando às origens, não é? De repente podemos dar de cara um com o outro na rua, e assim você saberá que o cara de barba, com alguns fios brancos no cabelo e usando óculos sou eu mesmo, o Eliseu. Gostaria que isso acontecesse para poder te rever. Você mudou? Espero que não. Seria muito bom se você ainda estivesse tal qual era quando eu saí daí.
Abraços,
Eliseu.

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: quarta-feira, 13 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Recebeu?

Prezada Laura,
Te mandei um e-mail faz uma semana e não recebi resposta. Acho que você não quer conversar comigo, nem mesmo pela internet, e é até compreensível, mas, por favor, diga se recebeu. Talvez eu tenha me enganado de endereço.
Abraços
Eliseu.

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: segunda-feira, 18 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Perdão

Querida Laura,
Não vou perguntar se você me perdoou. Acho que não, já que não recebi resposta ao meu e-mail. Você sabe muito bem o quanto sofri com nossa separação, talvez mais do que você. Na verdade ainda sofro.
Éramos tão felizes! Eu lhe disse que nossa história parecia um conto de fadas, desde crianças nos gostávamos e finalmente ficaríamos juntos para sempre. Mas a vida foi cruel conosco. Você está casada com outro e eu sozinho, pagando o meu erro.
Termino essa mensagem mandando um beijo, em memória dos velhos tempos.
Eliseu

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: sexta-feira, 22 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Explicações

Laurinha,
Deixei a Soraia faz tempo. Percebi logo a besteira que tinha feito. Soraia é vulgar, mentirosa e tem mau gênio. O que posso dizer em minha defesa além do que disse quando tudo aconteceu? Caí na armadilha, deixei-me enfeitiçar pelos olhos de cigana daquela mulher. Ainda teve o que você sabe, caí no golpe da barriga. Soraia não estava grávida nem nunca esteve. Fiquei louco, louco, apavorado com os irmãos dela atrás de mim, dizendo que eu tinha que casar senão me capavam. Mas isso você também sabe.
Ah, se eu pudesse voltar atrás!
Eliseu

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: domingo, 24 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Sua casa

Laurinha querida,
Imagino que você não me responda por medo do Fernando descobrir que está se correspondendo com seu antigo amor. Me disseram que ele é muito ciumento.
Consegui seu endereço e fui ver onde você mora. Espero que isso não te aborreça. Vi sua filha brincando. Linda, igual a você no tempo do colégio. Pena não ter conseguido ver você também. Estou com tanta saudade!
Embora tudo pareça um sonho, a casa de dois andares de janelas azuis e paredes brancas, a trepadeira subindo na varanda, o jardim bem cuidado, as azaléas floridas, não senti uma boa aura. Acho que no seu lar não reina a paz. Qualquer problema, lembre-se de que pode contar comigo.
Beijo,
Eliseu.

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: segunda-feira, 25 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Insisto.

Laurinha,
Mesmo sem resposta, insisto. Queria muito te ver, mas parece que você não sai de casa. Seu marido a mantém em cárcere privado? Um dia desses, depois que ele for para o trabalho naquele carrão, faço uma surpresa.
Tenho estado de plantão na sua porta, já sei que o Fernando leva a menina para o colégio quando sai e que sua empregada só chega mais tarde. Nesse intervalo, posso estar com você. Não se assuste, Rosinha, não deixo ninguém me ver. A última coisa que quero nessa vida é te prejudicar.
Beijo,
Eliseu

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: quinta-feira, 28 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Estive aí!

Laurinha querida,
Ontem consegui entrar. A porta de serviço de sua casa fica aberta. Aqui em Friburgo não tem mais ladrão? Enfim, um progresso, quanto ao resto parece que tudo piorou, principalmente depois dos deslizamentos do ano passado. De qualquer maneira, é um perigo não trancar a porta. Gostei da cozinha e da sala. Você vive no luxo!
Acho que você estava no andar de cima, ouvi o barulho do chuveiro. Gostaria de te ver tomando banho. Você tinha um corpaço. Me disseram que continua do mesmo jeito. Ainda bem que você não engordou, Rosa. Detesto mulheres gordas.
Tive que sair pela janela, pois ouvi a empregada entrando. Ela não chegou a me ver, fique tranquila.
Volto logo que puder. Vamos recordar os velhos tempos.
Beijo,
Eliseu.

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: sábado, 30 de março de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Amor da minha vida!

Laura, meu amor,
Você finalmente saiu! Eu te vi no Centro, de vestido branco. Sempre achei que o branco combina muito bem com o moreno de sua pele. Realmente você não engordou como tantas mulheres depois dos trinta. Está ainda mais bonita do que antes! Pena que estivesse na companhia do seu marido.
Você sempre foi o amor da minha vida, mesmo quando duvidou disso, pois foram lhe contar que eu saía ao mesmo tempo com você e com a Soraia. Espero que você entenda que só fiquei com ela por causa das ameaças dos irmãos e daquela história fajuta da gravidez. Nunca deixei de te amar.
Seu sempre apaixonado,
Eliseu.

De: nel@globo.com
Enviada em: segunda-feira, 8 de abril de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Novo endereço

Laura, Laura,
Meu último e-mail voltou. Deve ter sido o Fernando, aquele canalha ciumento, que bloqueou meu acesso a seu computador. A partir de agora passarei a usar esse outro e-mail para não deixar de me comunicar com você, sei que você sentiria falta de minhas mensagens.
Beijos
Eliseu

De: nel@globo.com
Enviada em: sexta-feira, 12 de abril de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Tá com medo?

Laura,
Isso não se faz! Colocar um segurança na porta? Tá com medo de mim, é? Não, isso é coisa do Fernando. Olha, Laurinha, aquilo que andaram dizendo logo que casei com a Soraia é pura mentira. Nunca espanquei ninguém! Soraia é que inventou que perdeu o bebê por causa de uma surra. Nunca houve bebê! Só o manjado golpe da barriga.
Na ocasião, resolvi me mudar daqui para fugir das fofocas. Prova de que foi tudo mentira é que Soraia me acompanhou quando me mudei para o Rio.
Os irmãos foram buscá-la porque ela andou contando uma porção de mentiras para a família. Nunca a agredi. O único agredido fui eu. Aqueles irmãos brutamontes me deixaram moído. Mas tenho que agradecer a eles me livrarem daquela bruxa.
Eliseu

De: nel@globo.com
Enviada em: quinta-feira, 18 de abril de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: O que tem que ser, será

Laurinha, minha amada,
Já percebi que não conseguirei entrar no seu castelo, tão bem guardado. Também não conseguirei ser lido por você, bloquearam nossa comunicação. Agora escrevo para mim mesmo. Mas o que tem que ser, será. Nosso amor é desde sempre e para sempre, e não é seu carcereiro que vai nos impedir de sermos de novo felizes juntos.
Eliseu.

De: eliseuneves@gmail.com
Enviada em: quarta-feira, 19 de junho de 2013
Para: laura.aguiar@terra.com.br
Assunto: Nunca a esquecerei!

Querida Laura
Passei um tempo sem procurá-la, você pode ter achado que a esqueci. Isso nunca! Olha o que aconteceu: Tive que deixar Friburgo às pressas. Soraia me perseguiu todo o tempo que morei aí, não me deixava em paz. E tinha a coragem de dizer a todo mundo que eu é que vivia atrás dela. Essa mulher fez um estrago em minha vida no passado e quer repetir a dose no presente.
Os irmãos, aqueles trogloditas, cismaram que eu é que a estava assediando, veja só. Logo eu, louco por você, fazendo tudo para te reencontrar e querendo ver Soraia pelas costas! Disseram que se me vissem perto dela, iam acabar comigo. Não duvido que fizessem isso, truculentos do jeito que são. Como não conseguia me livrar da perseguição da Soraia, acabei tendo que sair da cidade.
Mas volto, Laura, volto por sua causa. Tenho certeza de que você vai deixar o Fernando, e que finalmente vamos poder realizar nosso sonho de amor.
Um beijo do seu sempre
Eliseu.

Agosto 2013

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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