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A OUTRA HISTÓRIA
Miriam Mambrini

Descendo os cinco degraus que levavam de casa ao jardim, minha avó veio até o banco onde eu estava sentada e, com a reprovação estampada no rosto severo, estendeu-me um papel em que reconheci minha letra. Ali eu contava que, antes de partir, meu primo me dera um livro, que folheei me perdendo nas mil páginas impressas em letra miúda, sem vontade de começar a ler, até que uma palavra me arrebatou e levou a um labirinto de salas cheirando a antigo, velhas bibliotecas, catedrais, jardins açoitados pelos quatro ventos, ruas, praças em que as pessoas se sentavam absortas, sombrias florestas, praias lavadas pela espuma dos oceanos * e lá se escondia alguma coisa (verdade ou vida ou sina ou caminho) de cuja existência até então eu não suspeitara, mas que agora precisava encontrar. Pegara, então o papel e escrevera sobre os mistérios do labirinto, onde me enredava à procura do que estava para lá da minúscula face do mundo voltada para a casa da minha avó. As trilhas estreitas traçadas no desconhecido eram guardadas por olhos invisíveis à espera de que eu perdesse o rumo em alguma encruzilhada para se transformarem em feras e me devorarem. Quase certamente eu me enganaria em meio a tantos meandros, veredas e desvios, se a sutil marca dos pés de viajantes que me precederam não apontasse o caminho certo. Mas as pegadas foram se tornando tênues e se esvaneceram, me deixando sozinha e com medo. Minha letra se enfraqueceu e se apagou, substituída pela firme escrita da minha avó, a contar uma outra história, que era meu primo trazendo de longes terras um perfume de raro valor, que, por mágico poder, me tornou bela e desejável, e senhor de mim ele se fez, por ser o único a saber onde encontrar tal fragrância, sem a qual eu não mais poderia viver. Meu primo pôde então partir, seguro de que eu ficaria a esperá-lo, sem suspeitar da existência do labirinto com seus mistérios e sua verdade, tão maior do que a face voltada para a casa, o jardim e o banco, até onde minha avó viera, severa e reprovativa, me trazer o papel.

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Author Miriam Mambrini

Miriam Mambrini é carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, O Baile Das Feias, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances A Outra Metade, atualmente em segunda edição, As Pedras Não Morrem E O Crime Mais Cruel, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de Maria Quitéria, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda, em livro e audiolivro, Vícios Ocultos, contos, e Ninguém É Feliz No Paraíso, romance. Seus contos foram incluídos em várias antologias, entre as quais 30 Mulheres Que Estão Fazendo A Literatura Brasileira Hoje, seleção de Luiz Ruffato (Record) e Contos De Escritoras Brasileiras (Martins Fontes). Faz parte do grupo Estilingues, que publica antologias de contos fora do circuito comercial. Colaborou, com contos e artigos, em jornais e revistas, nacionais e estrangeiras, entre as quais a italiana Sagarana, a inglesa Litro, a espanhola 2384 e a brasileira Pessoa.

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